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- À margem da Assembleia-Geral da ONU
- Contacto vinha a ser preparado há semanas nos bastidores da diplomacia moçambicana
- Casa Branca disponibilizou posteriormente fotografias dos contactos de Trump com líderes estrangeiros
- Encontro decorreu de forma reservada e sem acesso livre da imprensa
- Minerais críticos, Segundo Compacto, saúde, infra-estruturas, agricultura e combate ao terrorismo na agenda
- Guebuza e Nyusi também tiveram contactos, mas em contextos diplomáticos diferentes
Uma fotografia de cortesia da Casa Branca colocou no centro do debate político moçambicano um encontro sobre o qual, até então, pouco se sabia. Daniel Chapo e Donald Trump aparecem lado a lado em Nova Iorque, à margem da 81.ª sessão da Assembleia-Geral das Nações Unidas, numa imagem divulgada vários dias depois de uma conversa que a Presidência classificou como “breve, mas importante”. Mas a fotografia mostra apenas o fim da história. O Evidências apurou não só a veracidade do encontro, como também que o contacto de 22 de Setembro não nasceu de um encontro fortuito nos corredores das Nações Unidas. Ele começou a ser preparado semanas antes, através de canais diplomáticos, até encontrar espaço na apertada agenda do Presidente norte-americano, e levou à conversa matérias concretas da relação entre Maputo e Washington, dos minerais críticos e do Segundo Compacto para Moçambique às infra-estruturas, agricultura, saúde e combate ao terrorismo.
Evidências
O contacto entre Daniel Chapo e Donald Trump ocorreu num formato reservado, durante uma semana em que a agenda do Presidente norte-americano em Nova Iorque esteve preenchida por reuniões bilaterais, encontros multilaterais e contactos com diferentes líderes estrangeiros.
Segundo a comunicação da Presidência da República, divulgada depois de a Casa Branca ter disponibilizado fotografias de alguns dos contactos mantidos por Trump, os dois Presidentes abordaram áreas concretas da cooperação entre Maputo e Washington, com destaque para o Segundo Compacto para Moçambique, através da Millennium Challenge Corporation (MCC) e da Millennium Challenge Account (MCA), saúde, infra-estruturas, agricultura, minerais críticos e combate ao terrorismo.
A imagem e a informação sobre o contacto rapidamente ganharam repercussão em Moçambique, sobretudo nas redes sociais, onde o movimento liderado por Venâncio Mondlane lançou dúvidas sobre a realização do encontro. Para essa discussão contribuiu, sobretudo, o facto de o contacto ao mais alto nível com a administração norte-americana só ter sido anunciado cerca de uma semana depois da participação de Chapo na Assembleia-Geral da ONU.
O intervalo entre o encontro e a divulgação da fotografia acabou, assim, por se transformar numa parte da própria notícia. Mas, enquanto nas redes sociais a discussão se concentrava na imagem, nos bastidores diplomáticos o contacto tinha começado muito antes. Segundo apurou o Evidências de fontes do departamento de Estado norte-americano, o encontro e a foto são verídicos.
Lobby diplomático vinha preparando encontro há algumas semanas
O Evidências sabe que os contactos diplomáticos para viabilizar o encontro decorriam havia algumas semanas, num processo condicionado pela apertada gestão da agenda de Donald Trump durante a sua presença em Nova Iorque.
Conseguir espaço nessa agenda era, por si só, uma operação diplomática. A Semana de Alto Nível da Assembleia-Geral concentra em poucos dias dezenas de Chefes de Estado e de Governo, ministros e responsáveis de organizações internacionais em Nova Iorque. Os encontros presidenciais são disputados, comprimidos no tempo e sujeitos a alterações até ao último momento. Foi nesse quadro que a diplomacia moçambicana trabalhou para garantir um contacto directo entre Chapo e Trump.
A forma como a Casa Branca organizou e documentou os contactos do Presidente norte-americano ajuda também a perceber por que razão as imagens não apareceram imediatamente. Os registos oficiais mostram que Trump manteve uma agenda intensa, incluindo encontros bilaterais, reuniões multilaterais e contactos breves com diferentes líderes. As fotografias foram produzidas pela equipa oficial da Casa Branca e disponibilizadas posteriormente.
“Caros compatriotas, recentemente, em Nova Iorque, mantivemos uma breve, mas importante conversa com o Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, sobre áreas de cooperação em que os nossos países já trabalham em conjunto, com destaque para as infra-estruturas, no âmbito do Segundo Compacto para Moçambique, através da Millennium Challenge Corporation (MCC) e da Millennium Challenge Account (MCA), e para a saúde. Acordámos continuar a trabalhar juntos e a explorar parcerias de benefício mútuo em áreas como minerais críticos, agricultura, infra-estruturas e combate ao terrorismo”, afirmou Chapo.
A documentação oficial da Casa Branca identifica diferentes formatos utilizados nos contactos presidenciais, entre os quais “bilateral meeting”, “pull-aside meeting”, “multilateral meeting” e “drop-by”. A distinção é relevante. Um contacto breve entre dois Presidentes não corresponde necessariamente a uma reunião bilateral formal, com delegações sentadas à mesa, assessores, imprensa e uma agenda pública detalhada. Mas também não deve ser confundido, quando há matérias previamente identificadas para discussão, com uma simples fotografia de ocasião.
Foi nesse ambiente de contactos rápidos e controlados que ocorreu o encontro entre Chapo e Trump. Ao contrário de reuniões diplomáticas tradicionais, acompanhadas por comitivas e jornalistas, nem todos os momentos da agenda de Trump durante a passagem por Nova Iorque tiveram acesso da imprensa.
Em vários casos, coube à própria Casa Branca disponibilizar posteriormente as imagens oficiais. Outros líderes presentes no mesmo evento também divulgaram fotografias creditadas ao Gabinete de Imprensa da Casa Branca, acompanhadas de referências aos contactos mantidos com o Presidente norte-americano.
Os casos do Bangladesh e do Kosovo ajudam a esclarecer esse procedimento. Tarique Rahman identificou a fotografia divulgada como tendo sido feita durante a recepção oferecida por Trump aos líderes mundiais e respectivos cônjuges, enquanto Albin Kurti descreveu o seu contacto com Trump durante a Semana de Alto Nível da Assembleia-Geral das Nações Unidas.
Uma agenda que foi além de uma fotografia
A publicação de Chapo rapidamente ganhou uma dimensão política interna. Venâncio Mondlane lançou dúvidas públicas sobre a fotografia e sobre a existência do encontro, desencadeando uma discussão que se propagou pelas redes sociais. O debate acabou por se concentrar na autenticidade e nas circunstâncias em que a imagem foi produzida. Os elementos disponíveis apontam para a realização do contacto mostram que a fotografia divulgada pela Presidência moçambicana foi fornecida pela Casa Branca.
A discussão sobre a fotografia acabou, contudo, por deixar em segundo plano aquilo que politicamente mais interessa no contacto: os assuntos que Maputo procurou colocar directamente perante a administração Trump.
Chapo chegou à Assembleia-Geral da ONU num momento em que Moçambique procura financiamento, investimento e maior capacidade para transformar os seus recursos naturais em actividade produtiva. No mesmo período, reuniu-se com a directora-geral do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, para discutir a situação orçamental, a política monetária e reformas económicas. A agenda económica atravessou, portanto, uma parte importante dos contactos do Presidente moçambicano em Nova Iorque.
537,5 milhões de dólares em cima da mesa
No centro da conversa com Trump esteve o Segundo Compacto para Moçambique, um programa de 537,5 milhões de dólares financiado através da Millennium Challenge Corporation e implementado pela Millennium Challenge Account-Moçambique.
A dimensão financeira ajuda a perceber por que razão o dossier chegou à conversa presidencial. O compacto concentra uma parte importante das suas intervenções na Zambézia e inclui investimentos em estradas e transportes rurais, agricultura comercial, meios de subsistência e adaptação às mudanças climáticas, além de reformas legais e institucionais com alcance nacional.
Não se trata, portanto, apenas de ajuda externa. Estradas rurais, acesso aos mercados e agricultura comercial estão ligados à capacidade de produtores e empresas fazerem circular mercadorias, reduzirem custos e aumentarem a actividade económica. Para Maputo, a execução do compacto representa simultaneamente financiamento, infra-estruturas e reformas consideradas necessárias para atrair investimento.
Minerais críticos e Cabo Delgado entram na conversa
O segundo dossier com uma dimensão estratégica mais ampla são os minerais críticos. A conversa ocorre num momento em que Washington procura reduzir vulnerabilidades nas cadeias internacionais de fornecimento de matérias-primas indispensáveis à indústria, tecnologia, energia e defesa. A competição pelo acesso seguro a esses recursos deixou de ser apenas uma questão comercial e passou a ocupar um lugar crescente na política económica e de segurança das grandes potências.
É nesse tabuleiro que Moçambique procura posicionar os seus recursos. Para Maputo, porém, o interesse está em evitar que essa relação se limite à extracção e exportação de matéria-prima. O desafio é atrair capital e tecnologia para aumentar o processamento local, desenvolver cadeias industriais e criar emprego especializado. É aí que os interesses dos dois países podem encontrar um ponto de convergência: os Estados Unidos procuram fontes alternativas e seguras de matérias-primas estratégicas; Moçambique procura transformar recursos existentes no subsolo em investimento e capacidade produtiva dentro do país.
O combate ao terrorismo acrescenta uma terceira dimensão à conversa. A insurgência em Cabo Delgado transformou a segurança do norte de Moçambique numa questão que ultrapassa as fronteiras nacionais. A província alberga também alguns dos maiores investimentos associados aos recursos naturais do país, o que faz com que segurança, energia, investimento e desenvolvimento económico se cruzem no mesmo território.
Ao colocar o combate ao terrorismo na conversa com Trump, Maputo levou, por isso, um dossier que não está isolado dos restantes. A estabilidade de Cabo Delgado influencia a capacidade de Moçambique atrair e manter grandes investimentos, desenvolver infra-estruturas e retirar maior rendimento económico dos seus recursos. Saúde, agricultura e infra-estruturas completaram a agenda apresentada pela Presidência.
O encontro de Nova Iorque foi breve e não produziu o anúncio de novos acordos. Também não teve o formato de uma reunião bilateral formal entre delegações. Mas permitiu colocar directamente perante o Presidente dos Estados Unidos dossiers concretos da relação entre Maputo e Washington.
No final, a fotografia que dominou a discussão nas redes sociais acabou por mostrar apenas a parte mais visível do encontro. O que não aparece na imagem são as semanas de contactos que o antecederam nem os interesses económicos, estratégicos e de segurança levados para a conversa.
Importa referir que este não é o primeiro encontro de um Presidente moçambicano. Em Junho de 2005, Armando Guebuza realizou uma visita de trabalho aos Estados Unidos, tendo entre os assuntos em discussão o African Growth and Opportunity Act, AGOA. Em Agosto de 2014, participou na Cimeira de Líderes Estados Unidos–África, organizada pela administração Barack Obama. Os registos históricos do Departamento de Estado confirmam ambas as deslocações. Filipe Nyusi, por sua vez, participou na Cimeira Estados Unidos–África de 2022, em Washington, onde esteve com Joe Biden.
A diferença, no entanto, em relação aos anteriores, está no formato e na agenda. Guebuza esteve inserido em visitas de trabalho e numa grande cimeira multilateral, enquanto Nyusi, no seu encontro com Biden, esteve inserido sobretudo no formato da Cimeira Estados Unidos–África e nos contactos diplomáticos que a acompanharam. Ainda muito antes destes, houve Samora Machel e Joaquim Chissano, dois presidentes que tiveram encontros oficiais com Presidentes norte-americanos.



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