Chicken Palace engole o Estado, a soberania e já chegou à aviação

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Com instalações no quartel, empresa estrangeira ascende silenciosamente a sectores sensíveis
  • Chicken Palace expandiu serviços públicos, alcançando sectores estratégicos e sensíveis
  • Matalana abandonou cozinha própria, entregando alimentação integralmente à Chicken Palace
  • Empresa avançou da polícia para ministérios, Parlamento, Procuradoria e Frelimo
  • Entrada na aviação levanta dúvidas sobre licenciamento, certificação e contratação pública
  • Concentração logística num fornecedor privado amplia dependência e riscos institucionais estratégicos
  • Controlo estrangeiro de negócios estratégicos cria potencial para lavagem de dinheiro

Instalada na Avenida Base N’Tchinga, dentro de um espaço do quartel-general das Forças Armadas de Moçambique, Palace Complexo, Lda de nome comercial Chicken Palace apresenta uma particularidade que ultrapassa a simples prestação de serviços de catering: expõe uma empresa de controlo maioritariamente estrangeiro que foi progressivamente aproximando-se da logística de instituições estratégicas e sensíveis das Forças de Defesa e Segurança (FDS). A empresa conseguiu entrar na polícia, no Teatro Operacional Norte, no Parlamento, na Frelimo, na Procuradoria-Geral da República (PGR) e, de forma forçada quando não se mostrava qualificado para o efeito, na aviação. O risco, alertam fontes ligadas ao SISE, está sobretudo na concentração e terceirização a estrangeiros de serviços sensíveis, porque o fornecedor passa a conhecer rotinas, volumes de consumo, efectivos, destinos, frequências e circuitos logísticos capazes de revelar indirectamente informação operacional. É um princípio reconhecido nos referenciais de segurança de cadeias de abastecimento que indica que terceiros com acesso continuado a sistemas, instalações ou operações críticas constituem um risco que deve ser identificado, avaliado e permanentemente controlado. Para uma fonte dos serviços de informação, Moçambique estaria a acumular dependências que deveriam suscitar debate: “É como se o país tivesse decidido terceirizar as Forças Armadas ao Ruanda, os BI e cartas de condução a estrangeiros e, agora, concentrar a alimentação e logística de instituições sensíveis numa empresa controlada por estrangeiros”. O problema não é a nacionalidade dos accionistas, mas quanto conhecimento estratégico e dependência operacional o Estado aceita concentrar num único fornecedor privado e quem está efectivamente está pode detrás destes.

 Evidências

De uma pequena empresa de restauração a fornecedora recorrente de algumas das instituições mais sensíveis do Estado. A ascensão da Palace Complexo, Lda., conhecida comercialmente como Chicken Palace, deixa perguntas sobre as conexões e os factores que explicam a capacidade desta empresa de atravessar diferentes centros de poder, do consulado de Nyusi até de Chapo e instituições praticamente sem turbulência.

A Palace Complexo apresenta-se como uma empresa multidisciplinar do sector do turismo e hotelaria, fundada em 2006 e inicialmente vocacionada para restauração, eventos e festas. Actualmente, a própria empresa inclui, entre as suas especialidades, catering, eventos, decoração e aluguer de materiais, tendo a sua sede na Avenida Base N’Tchinga, em Maputo.

Mas a história empresarial que interessa escrutinar começa sobretudo mais tarde. Em 2015, meses depois de se inaugurar o consulado de Filipe Nyusi,  a Palace Complexo sofreu uma reestruturação societária. Segundo dados constantes do Boletim da República consultados pelo Evidências, o capital passou a estar concentrado no cidadão dominicano Juan Rafael Jimenez, com 88% das participações, tendo como outra sócia Scarlete Dayanara Villa Cabrera.

A estranha penetração no sector castrense

É uma composição societária perfeitamente possível à luz da abertura da economia moçambicana ao investimento estrangeiro. O problema que se coloca não é, portanto, a nacionalidade dos sócios. Mas o facto de uma empresa controlada maioritariamente por capital estrangeiro ter conseguido atingir tamanho grau de penetração em organismos estratégicos do Estado, incluindo sectores policiais, militares e de soberania.

O ponto de viragem terá ocorrido durante o comando de Bernardino Rafael na Polícia da República de Moçambique (PRM). Um documento remetido ao Evidências, que contém várias alegações, sustenta que a Escola Prática de Polícia de Matalana manteve, desde 1976, um sistema próprio de cozinha. Ela recebia produtos alimentares e a confecção das refeições era assegurada por cozinheiros pertencentes ao Quadro Técnico Comum.

Segundo o documento, esse modelo foi desmantelado e os cozinheiros reformados, tendo a Chicken Palace assumido a alimentação da Escola. Neste processo, segundo apurámos, a contratação ocorreu sem concurso público. É justamente aqui que começa uma expansão difícil de ignorar.

Segundo a mesma fonte, depois de Matalana, os serviços da empresa estenderam-se a esquadras, à Unidade de Protecção de Altas Individualidades e a outras unidades policiais, através do fornecimento de refeições diárias. O documento chega a associar a Chicken Palace à logística destinada ao Teatro Operacional Norte, afirmando que camiões transportavam mantimentos para Nampula e Cabo Delgado. A partir daí, o crescimento deixou aparentemente de estar circunscrito à Polícia.

A Chicken Palace, de ligações nacionais ocultas, mas ao que tudo indica com poder, passou a aparecer associada ao fornecimento de catering para diferentes instituições públicas, órgãos de soberania, ministérios e estruturas partidárias. A empresa chegou igualmente a servir grandes encontros políticos, incluindo a recente Reunião Nacional de Quadros da Frelimo, em Chimoio.

Controlo estrangeiro de negócios estratégicos cria potencial para lavagem de dinheiro

Existem exemplos documentados de contratação pública da Palace Complexo fora da PRM. Em 2023, foi noticiada uma adjudicação de cerca de 11,4 milhões de meticais, através de concurso limitado, pelo então Ministério do Trabalho e Segurança Social para serviços de catering e ornamentação.

Mais recentemente, documentação administrativa do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, datada de Fevereiro de 2026, identifica a Palace Complexo/Chicken Palace como fornecedora de alimentação para uma capacitação de 70 funcionários, por 1,179 milhões de meticais. O documento menciona inclusive a existência de dívidas anteriores do MINEC para com o fornecedor. O que emerge, portanto, é o retrato de uma empresa que conseguiu sobreviver a mudanças de dirigentes e atravessar diferentes centros institucionais sem grandes turbulências.

Há igualmente uma dimensão de segurança nacional que merece discussão, sem cair na ideia simplista de que capital estrangeiro constitui, por si só, uma ameaça. Imagine-se uma empresa privada que, simultaneamente, conhece os efectivos presentes numa unidade, volumes diários de alimentação, locais de entrega, periodicidade dos abastecimentos, rotas logísticas e alterações repentinas de consumo. Mesmo sem acesso formal a documentos classificados, esses dados podem permitir inferir movimentações, concentração de efectivos e alterações operacionais.

Concentração excessiva de serviços sensíveis numa única entidade privada

É consensual entre as fontes que a empresa tem suporte dentro da Frelimo apesar de rostos estrangeiro. Fontes consideram que além de concentração de riscos, o controlo estrangeiro de negócios estratégicos cria potencial para lavagem de dinheiro.  Num teatro de guerra, por exemplo, a multiplicação das refeições ou das entregas numa determinada região pode revelar aumento de tropas. A mudança de uma rota de abastecimento pode indicar deslocação operacional. Num órgão de soberania, a prestação permanente de serviços permite conhecer rotinas, acessos, horários, fornecedores e vulnerabilidades.

O problema, portanto, não está no passaporte dos accionistas. Está, de acordo com uma fonte do SISE, na concentração excessiva de serviços sensíveis numa única entidade privada sem mecanismos suficientemente transparentes de escrutínio, concorrência, segurança e prevenção de conflitos de interesses. É por isso que o caso Chicken Palace não deveria ser reduzido à qualidade das refeições que fornece.

Importa estabelecer quantos contratos a Palace Complexo celebrou com o Estado desde 2015, quais foram adjudicados por concurso público, ajuste directo ou outras modalidades, quanto dinheiro público recebeu, que instituições atende actualmente e quem são os seus beneficiários efectivos.

A mais recente fronteira da expansão da Chicken Palace é a aviação. Informações recolhidas pelo Evidências indicam que a empresa terá sido indicada para prestar serviços neste sector sem concurso público e, alegadamente, sem possuir a certificação e o licenciamento específicos exigidos para a actividade.

A entrada na aviação acrescenta-se a uma presença que fontes ouvidas pelo jornal situam já na Assembleia da República, Procuradoria-Geral da República, ministérios, eventos de individualidades da Frelimo e reuniões do próprio partido. Mais do que ampliar a carteira de clientes, este novo passo desperta curiosidade pela semelhança com o percurso iniciado na Escola Prática de Polícia de Matalana.

Ali, segundo documentação consultada pelo Evidências, o sistema interno de cozinha, existente desde 1976, foi descontinuado e substituído pela contratação da Chicken Palace, sem concurso público. Agora, nas Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), fontes apontam para uma dinâmica semelhante: serviços que eram assegurados internamente estariam a ser preteridos para abrir espaço à entrada da Chicken Palace. A confirmar-se, o paralelismo coloca uma questão que ultrapassa o catering e coloca instituições públicas abdicar de capacidades próprias para concentrar esses serviços no mesmo operador privado.

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