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- Nove anos depois, terrorismo continua sem horizonte de fim
- Resposta militar reduziu capacidade de ocupação, mas não destruiu a insurgência
- ONU estima entre 400 e 500 combatentes e identifica novos sinais de expansão para sul
- Ruanda tornou-se peça central, enquanto Maputo não mostra sinais de querer assumir o controlo
- Terroristas trocaram grandes ofensivas por pequenos grupos, raptos, extorsão e ataques de oportunidade
O terrorismo em Cabo Delgado entrou esta semana no seu décimo ano de existência. O primeiro ataque armado, ocorrido a 5 de Outubro de 2017, em Mocímboa da Praia, marcou o início de uma insurgência que, nove anos depois, continua activa, apesar de sucessivas operações militares, da entrada de forças estrangeiras, da criação de novas estruturas de coordenação e da aprovação de uma estratégia nacional de prevenção e combate ao terrorismo.
Reginaldo Tchambule
Falta exactamente um ano para o conflito completar uma década. E faltam apenas sete anos para atingir o registo da duração da Guerra Civil, que se prolongou por cerca de 20 anos, entre 1976 e 1992.
Nove anos depois, o Estado moçambicano continua sem conseguir estabelecer um horizonte temporal para a irradicação da insurgência, enquanto o discurso governamental dos últimos meses insiste nos progressos alcançados.
O Governo fala em redução da capacidade terrorista. Os dados disponíveis confirmam que os insurgentes já não controlam centros urbanos como aconteceu em 2020 e 2021, mas estão longe de terem capitulado, pois ainda demonstram capacidade de ataque coordenado, inclusive a bases e posições militares
Na noite de 22 de Junho de 2026, os terroristas voltaram a mostrar capacidade de ataque a posições das Forças de Defesa e Segurança, quando visaram a posição militar de Namabo, no distrito de Macomia. O mesmo viria mais tarde a ser reivindicado pelo Estado Islâmico que afirmou ter matado cinco militares. A posição já havia sido atacada anteriormente, incluindo em 31 de Janeiro.
Mais tarde, no início de Julho, o Estado Islâmico reivindicou um ataque na floresta de Catupa, também em Macomia, alegando a morte de cinco militares e a captura de outro. A reivindicação não foi confirmada oficialmente pelas autoridades.
O 38.º relatório da Equipa de Apoio Analítico e Monitorização de Sanções das Nações Unidas, divulgado em Agosto de 2026, oferece uma fotografia particularmente importante da situação.
Segundo o documento, a força da Ahlu Sunnah Wal Jamaa, grupo associado ao Estado Islâmico que opera em Cabo Delgado, aumentou para uma estimativa de 400 a 500 combatentes, apesar das operações militares multinacionais. A actividade continua concentrada sobretudo em Macomia, Mocímboa da Praia, Muidumbe, Palma, Quissanga, Meluco e Nangade.
Mas há uma evolução que merece atenção. A ONU identificou sinais de actividade emergente em Meluco, Montepuez, Ancuabe e Chiúre, apontando para uma gradual expansão para sul. Este relatório saiu antes do grupo voltar a atacar acampamentos na Reserva Especial do Niassa.
Ou seja, a insurgência pode ter perdido capacidade para conquistar e manter grandes centros populacionais, mas conservou capacidade para mover-se, esconder-se, recrutar, financiar-se e atacar em diferentes pontos e o principal centro operacional continua a ser o eixo Mocímboa da Praia–Macomia–Muidumbe.
Raptos e extorções como novo modus operandi
Enquanto a resposta governamental, com ajuda das tropas ruandesas ainda continua limitada, a própria forma de financiamento demonstra essa adaptação. A ONU aponta a extorsão como uma das principais fontes de rendimento do grupo, incluindo cobranças a barcos de pesca, camiões e operadores ligados ao comércio de recursos marinhos.
Os raptos também continuam a gerar dinheiro. Em muitos casos, os resgates são relativamente pequenos, mas repetidos. É justamente essa característica que torna o sistema difícil de detectar, pois, segundo a ONU, pequenas quantias circulam através de mecanismos informais, misturando-se com a economia legítima.
Ruanda: o aliado que não pode sair
É impossível analisar a actual resposta de segurança em Cabo Delgado sem colocar o Ruanda no centro da equação. Kigali entrou militarmente em Moçambique em 2021, quando a insurgência havia atingido um dos seus pontos mais críticos, depois da tomada de Mocímboa da Praia e do ataque a Palma.
A intervenção ruandesa alterou significativamente o equilíbrio militar e permitiu recuperar posições estratégicas. Cinco anos depois, porém, a presença ruandesa continua, uma permanência prolongada que mostra que a transferência completa da responsabilidade de segurança para as forças moçambicanas continua a ser um processo inacabado.
Em Março de 2026, especialistas do Institute for Security Studies alertaram precisamente para os riscos associados à eventual saída das tropas ruandesas. O debate surgiu depois de Kigali ter ameaçado retirar as suas forças caso não fosse encontrada uma solução sustentável para financiar a missão.
Em Maio, o próprio Ruanda anunciou que continuaria em Cabo Delgado, depois de Moçambique ter assegurado o financiamento da presença das suas tropas. Em Julho, Daniel Chapo visitou o quartel-general das forças ruandesas em Mocímboa da Praia e agradeceu formalmente o papel desempenhado por Kigali na luta contra o terrorismo.
A questão que não quer parar é: até quando Moçambique precisará do Ruanda para manter determinadas zonas sob controlo? Uma análise da ACLED mostra que os insurgentes permaneceram activos em Macomia e Mocímboa da Praia, mesmo depois da expansão das forças ruandesas. Em 2024, Kigali chegou a duplicar aproximadamente o seu contingente, enquanto a actividade insurgente continuava em vários distritos.
Um nova estratégia chega nove anos depois
Em 2025, o Governo aprovou a Estratégia Nacional de Prevenção e Combate ao Terrorismo e Extremismo Violento e criou o Centro Nacional de Prevenção e Combate ao Terrorismo e Extremismo Violento.
A ONU, através da sua Direcção Executiva do Comité contra o Terrorismo, realizou em Abril de 2026 consultas técnicas com Moçambique para avaliar precisamente a resposta nacional, incluindo prevenção, financiamento, gestão das fronteiras, justiça criminal e cooperação internacional.
A ONU considera um avanço institucional, mas também revela que, nove anos depois do primeiro ataque, o país ainda está a consolidar instrumentos fundamentais para enfrentar um fenómeno que já deixou de ser uma emergência localizada e passou a constituir um problema estrutural de segurança nacional.
Enquanto o debate militar se concentra no número de terroristas neutralizados ou nas zonas recuperadas, a população continua a pagar o preço da instabilidade. A avaliação de mobilidade da Organização Internacional para as Migrações registou, entre Outubro de 2025 e Janeiro de 2026, mais de 661 mil deslocados internos em Moçambique. Cabo Delgado concentrava 72% desse universo. O relatório associou o aumento do deslocamento a incidentes de violência no norte do país.
A ONU já havia alertado, em Setembro de 2025, para uma subida acentuada da violência contra civis em Cabo Delgado, com 519 incidentes registados até Agosto, contra 372 em todo o ano de 2024.



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