Share this
- Nampula quer deixar de exportar matéria-prima e desafia Índia a investir na transformação local
- Eduardo Abdula optou por não alimentar publicamente os embates e concentrou-se no trabalho
Enquanto enfrenta um fogo cruzado dentro da Frelimo, onde a sua frontalidade tem sido questionada por sectores que o acusam de violar a disciplina partidária, o governador de Nampula, Eduardo Mariamo Abdula, optou por não alimentar publicamente os embates e concentrou a sua agenda no trabalho. Em Mumbai, na Índia, Abdula apresentou uma ofensiva para atrair investimento e tecnologia destinados à transformação agro-industrial, defendendo que Nampula deve deixar de ser apenas fonte de matérias-primas para assumir-se como produtora e fornecedora de bens transformados. A província dispõe de mais de dois milhões de hectares de terra arável e forte produção de amendoim, algodão e gergelim, enquanto soja e girassol emergem como culturas estratégicas. Apesar deste potencial, importa mais de 90% do óleo alimentar que consome. Na Índia, o governador defendeu uma parceria assente numa complementaridade que se resume no fornecimento de matéria-prima e condições produtivas, enquanto a Ásia pode oferecer tecnologia, equipamentos e mercado, permitindo produzir, transformar localmente e exportar produtos acabados.
Evidências
Nampula quer alterar a sua posição nas cadeias internacionais de valor, deixando de ser essencialmente fornecedora de matérias-primas para se assumir como produtora e transformadora de bens acabados destinados ao consumo interno, regional e internacional. A ambição foi apresentada, em Mumbai, na Índia, pelo governador da província, Eduardo Mariamo Abdula, durante o Nampula Investment Pitch, onde procurou convencer investidores asiáticos a apostar na agro-indústria, com particular incidência nas oleaginosas.
A mensagem levada à Índia parte de uma equação que o Governo Provincial considera favorável às duas partes, Nampula possui terra, produtores, matéria-prima e condições agro-ecológicas, enquanto a Ásia dispõe de tecnologia, equipamentos, capital e um mercado com capacidade para absorver produtos agrícolas e agro-industriais.
“Nampula é a fonte da matéria-prima. Temos de nos posicionar como produtores de facto e vemos a Ásia como nosso mercado estratégico”, defendeu Abdula, apelidado por tio Salim, acrescentando que a província reúne condições para se tornar fornecedora de referência no mercado global.
O governador sustentou que Nampula dispõe de produtores, terra e condições agro-ecológicas particularmente favoráveis às oleaginosas, uma combinação que considera suficiente para construir uma parceria de longo prazo com investidores asiáticos.
A província tem mais de dois milhões de hectares de terra arável e uma forte base produtiva de culturas como amendoim, algodão e gergelim, enquanto a soja e o girassol começam a assumir-se como culturas estratégicas. É precisamente sobre esta base que o Executivo pretende desenvolver cadeias de valor competitivas e criar capacidade local de processamento, incluindo para a produção de óleo alimentar.
O desafio é também reduzir uma contradição estrutural. Apesar do seu potencial agrícola, Nampula importa mais de 90% do óleo alimentar que consome. O Governo Provincial pretende inverter esta realidade através da instalação de capacidade industrial que permita transformar localmente parte crescente da produção agrícola, gerar emprego e reduzir a dependência de produtos acabados provenientes do exterior.
Carta de Intenções abre caminho ao mercado global
Eduardo Abdula revelou que já foi dado um passo concreto para transformar a aproximação entre Nampula e o mercado asiático numa relação institucional. Foi assinada uma Carta de Intenções destinada a posicionar a província no mercado global das oleaginosas.
A iniciativa envolve a Província de Nampula, a Associação de Extractores de Solventes da Índia (SEA) e a Solidaridad, com enfoque no desenvolvimento sustentável de oleaginosas, óleos vegetais e respectivas cadeias de valor. A cooperação deverá abranger troca de conhecimento, produção sustentável, processamento, desenvolvimento de mercados e estudos de viabilidade.
Apesar da aposta nas exportações, Abdula procurou afastar a possibilidade de uma estratégia orientada para o mercado externo comprometer o abastecimento interno. “Mas deixem-me ser claro. A nossa primeira prioridade é garantir a segurança alimentar da nossa população. A nossa estratégia de exportação é construída sobre essa base”, afirmou.
Segundo o governador, a estratégia provincial enquadra-se numa visão nacional orientada pelo Presidente da República, Daniel Chapo, segundo a qual o país deve superar o modelo de simples exportação de matérias-primas e avançar para três etapas fundamentais, como produzir, transformar localmente e exportar produtos acabados.
Nampula já possui indústrias e parques industriais que transformam produtos locais para consumo final. Porém, para aumentar a escala e diversificar a transformação, o Executivo identifica uma lacuna fundamental, tecnologia e equipamentos.
“Precisamos daquilo que vocês têm. Equipamentos e tecnologia”, disse Abdula aos empresários presentes em Mumbai. A procura vai desde tecnologias aplicadas à produção agrícola até equipamentos industriais capazes de transformar matérias-primas locais em produtos acabados. O objectivo é, primeiro, responder às necessidades do mercado doméstico e, simultaneamente, construir capacidade para abastecer mercados da África Austral e outros destinos internacionais.
Governo responde aos receios dos investidores
O governador reconheceu que a decisão de investir em África é frequentemente condicionada pela percepção de risco relacionada com instabilidade política, segurança e corrupção. Em vez de ignorar estas preocupações, defendeu um modelo em que investidores estrangeiros estabeleçam parcerias com empresários locais dotados de capacidade logística e organização financeira e jurídica.
Na perspectiva do Executivo, estas parcerias podem reduzir a exposição dos investidores, facilitar a adaptação ao ambiente de negócios e melhorar o conhecimento das condições específicas do país.
Sobre a estabilidade política, Abdula sustentou que Moçambique possui uma direcção definida sob a liderança de Daniel Chapo. Em relação à segurança, apresentou Nampula como uma província essencialmente vocacionada para o trabalho, comércio e agricultura. No capítulo da transparência, defendeu relações directas entre Governo e empresas, reduzindo a intervenção de intermediários.
A província apresenta ainda como vantagem a sua posição no Corredor de Nacala e a ligação rodoviária e ferroviária ao Porto de Nacala, permitindo conexão com áreas produtivas de Niassa, Cabo Delgado e Zambézia, assim como com mercados regionais e internacionais.
A estratégia passa igualmente por aproveitar a estrutura produtiva já existente. Nampula dispõe de agricultores comerciais e familiares, associações, cooperativas, comerciantes, agregadores e serviços de extensão rural, condições que, segundo o Executivo, permitem desenvolver agricultura por contrato, mercados estruturados, agregação e processamento industrial.
As relações históricas entre Nampula e a Índia são outro activo que o Governo pretende converter em investimento produtivo. O objectivo declarado é fazer a relação evoluir “do comércio ao investimento, das commodities ao processamento” e das operações comerciais pontuais para parcerias de longo prazo.
Como continuidade desta ofensiva de captação de investimento, empresas indianas, investidores e fornecedores de tecnologia foram convidados a participar na Feira Económica de Nampula (FENA) 2027, onde o Executivo pretende juntar produtores, processadores, instituições financeiras, fornecedores tecnológicos e entidades públicas para identificar projectos concretos.



Facebook Comments