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- Até 3,77 milhões de pessoas poderão enfrentar fome e crise de água
- INGD admite que os recursos disponíveis são limitados face à dimensão das necessidades
- 12,96 milhões de moçambicanos já não têm acesso à água, segundo a WaterAid
- Mais de 30 distritos estão sob risco de seca na próxima época chuvosa
- ACAPS coloca Moçambique entre os países de maior risco de impactos humanitários severos
- MAAP não responde sobre medidas de preparação para o fenómeno
Moçambique acaba de entrar, oficialmente, na época chuvosa e ciclónica num contexto de combinação de riscos que ameaça agravar a insegurança alimentar aguda, reduzir a disponibilidade de água e aumentar a pressão sobre comunidades já vulneráveis. A situação coloca milhões de pessoas sob ameaça de fome e escassez de água e o Governo reconhece não ter recursos à altura da crise que se avizinha. O próprio Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) admite que os recursos disponíveis para assistência humanitária são, em regra, limitados perante a dimensão das necessidades provocadas por eventos climáticos extremos. O alerta ganha peso perante as previsões de um El Niño que poderá estar entre os mais severos dos últimos 50 anos, com até 3,77 milhões de pessoas no Centro e Sul do País em risco, enquanto outras regiões poderão ser atingidas por chuvas intensas e cheias.
Edmilson Mate
O alerta surge quando o País ainda ressente os efeitos da última época chuvosa, marcada por mais de 314 mortes, destruição de infra-estruturas, perdas agrícolas e deslocação de comunidades. Agora, a ameaça poderá mudar de natureza. Em vez de excesso de água em algumas regiões, o Centro e Sul do País poderão enfrentar períodos prolongados de défice de precipitação, com consequências directas sobre a agricultura, disponibilidade de água e meios de subsistência.
Cerca de 30 distritos foram identificados como particularmente vulneráveis, sobretudo nas zonas áridas e semi-áridas de Maputo, Gaza, Inhambane, Sofala, Manica e Tete, havendo igualmente distritos em risco nas províncias de Nampula e Cabo Delgado.
A situação aumenta a preocupação sobre a disponibilidade de água para consumo humano, produção agrícola e criação de animais, numa altura em que 46% da população moçambicana, equivalente a cerca de 12,96 milhões de pessoas, não tem acesso à água, segundo dados da WaterAid Moçambique.
Num contexto de possível redução das chuvas associada ao El Niño, a pressão sobre os recursos hídricos poderá agravar as dificuldades de comunidades que já enfrentam limitações no acesso à água. Mas, o risco não é meramente climático. É também social e económico. Milhões de pessoas dependem da agricultura de sequeiro e possuem pouca capacidade para absorver perdas sucessivas de produção e rendimento.
A experiência recente mostra que estes eventos podem resultar em vítimas humanas. O El Niño de 2015/16 esteve associado a uma das mais severas secas registadas na África Austral, enquanto o episódio de 2023/24 afectou cerca de 242.611 pessoas em Moçambique e esteve associado à morte de aproximadamente 154 pessoas, segundo dados das autoridades.
Para 2026/27, As projecções apontam para a possibilidade de um El Niño entre os mais intensos registados desde 1950. A actualização da Organização Meteorológica Mundial (OMM), de 3 de Setembro de 2026, prevê uma anomalia média do índice Niño 3.4 de aproximadamente +3,6 °C entre Setembro e Novembro de 2026.
3,77 milhões de pessoas poderão enfrentar insegurança alimentar aguda
Cerca de 3,77 milhões de pessoas poderão enfrentar insegurança alimentar aguda no pico da crise nas zonas mais afectadas do Centro e Sul do País, caso se confirmem condições de seca semelhantes às observadas historicamente durante episódios de El Niño. A estimativa é do Programa Mundial para a Alimentação (WFP), que alerta para o risco de agravamento da insegurança alimentar e da desnutrição entre as populações mais vulneráveis.
O número foi calculado a partir do cruzamento das previsões climáticas do País, dados de projecção populacional do Instituto Nacional de Estatística para 2026 e indicadores de vulnerabilidade e segurança alimentar dos agregados familiares.

Maurício Burtet, director nacional adjunto do WFP Moçambique, explica que ainda é cedo para determinar com precisão quantas pessoas necessitarão efectivamente de assistência alimentar e nutricional. O número final dependerá da evolução das condições climáticas e dos seus efeitos sobre a produção agrícola, os mercados e os meios de subsistência.
“As crianças menores de cinco anos, as mulheres grávidas e que amamentam e as famílias rurais de baixos rendimentos estão entre os grupos mais vulneráveis aos impactos de um fenómeno El Niño severo”, alerta Burtet.
A redução da produção agrícola e dos rendimentos familiares poderá comprometer a qualidade e a diversidade da alimentação, aumentando os riscos nutricionais. A preocupação aumenta porque o período de maior impacto do fenómeno poderá coincidir com a época de escassez alimentar, quando as reservas de muitas famílias já estarão reduzidas ou esgotadas.
No Centro e Sul, os pequenos agricultores dependentes da agricultura de sequeiro, as famílias rurais de baixos rendimentos e as comunidades que dependem dos recursos naturais para a sua subsistência poderão enfrentar perdas de produção, redução de rendimentos e aumento dos preços dos alimentos.
No Norte, onde são esperadas chuvas próximas ou acima da média, o risco assume outra forma. Episódios de precipitação intensa poderão provocar inundações, destruição de culturas e deslocação de famílias.
12,96 milhões sem acesso à água
Para além da ameaça à produção alimentar, a outra preocupação é a disponibilidade de água, durante a prevalência do fenómeno, num contexto em que cerca de 46% da população moçambicana, equivalente a aproximadamente 12,96 milhões de pessoas, não tem acesso à água, segundo dados da WaterAid Moçambique.
Num contexto de possível redução das chuvas, a pressão sobre os recursos hídricos poderá agravar as dificuldades de comunidades que já enfrentam limitações no acesso à água para consumo humano, produção agrícola e criação de animais.
Cerca de 30 distritos foram identificados como particularmente vulneráveis à seca, sobretudo nas zonas áridas e semi-áridas de Maputo, Gaza, Inhambane, Sofala, Manica e Tete. Existem igualmente distritos em risco nas províncias de Nampula e Cabo Delgado.
O problema, contudo, não é simplesmente a quantidade de água que cai do céu. É também a capacidade de armazenar, gerir e distribuir esse recurso nos períodos de abundância para enfrentar os períodos de escassez.
ACAPS coloca Moçambique entre países de maior risco
A organização internacional independente ACAPS coloca Moçambique entre os países com maior risco de impactos humanitários severos associados ou agravados pelo El Niño.
A organização antecipa precipitação abaixo da média no início da época chuvosa, particularmente em Novembro e Dezembro, incluindo no Sul de Moçambique. Um início tardio das chuvas poderá atrasar a instalação das culturas alimentares de sequeiro e reduzir as perspectivas de produção.
O impacto poderá estender-se dos campos para os mercados. Menor produção significa menos alimentos disponíveis, perda de rendimentos para os produtores e potencial pressão sobre os preços. Para famílias que já vivem com rendimentos reduzidos, a combinação entre alimentos mais caros e menor capacidade de produção poderá aprofundar a insegurança alimentar.
Ao mesmo tempo, noutras regiões, chuvas intensas poderão manter os riscos de cheias, erosão, destruição de culturas e danos nas infra-estruturas. Ou seja, o País poderá enfrentar simultaneamente seca no Centro e Sul e excesso de água em determinadas zonas do Norte.
INGD admite limitações na capacidade de resposta

Perante um cenário de riscos múltiplos, uma das maiores preocupações não está apenas na dimensão dos impactos, mas na capacidade financeira para responder ao El Niño. Em entrevista ao Evidências, Paulo Tomás, director da Divisão de Desenvolvimento das Zonas Áridas e Semi-áridas e porta-voz do INGD, alerta que a época chuvosa e ciclónica 2026/27 poderá ser marcada por secas, cheias e possíveis eventos ciclónicos.
Segundo o responsável, as previsões do INAM apontam para secas severas e moderadas em mais de 30 distritos, sobretudo nas regiões Sul e Centro, enquanto algumas zonas poderão registar precipitação acima do normal.
“Em suma, para a presente época chuvosa e ciclónica, espera-se a ocorrência de secas, cheias e eventos ciclónicos”, afirma.
As zonas áridas e semi-áridas de Maputo, Gaza, Inhambane, Sofala, Manica e Tete estão entre as mais vulneráveis à seca. Para as cheias e inundações, Tomás destaca igualmente a vulnerabilidade de cidades costeiras como Beira e Quelimane, onde tempestades tropicais e ciclones poderão provocar impactos localizados.
Perante a possibilidade de secas severas, o responsável defende a antecipação das medidas de resposta, com prioridade para o acesso à água, resiliência agrícola, protecção social e prevenção da desnutrição.
Mas, questionado sobre a existência de um eventual défice de financiamento para responder aos riscos previstos, Tomás admite que os recursos são uma preocupação. Embora diga que ainda não seja possível determinar o défice para a próxima época, por estar em curso a harmonização do Plano Nacional de Contingência 2026/27, reconhece que a capacidade de resposta é normalmente inferior à dimensão das necessidades.
“Os recursos disponíveis para a assistência humanitária são, em regra, limitados quando comparados com a dimensão das necessidades geradas por eventos climáticos extremos”, reconhece.
Para colmatar eventuais lacunas, o INGD pretende mobilizar recursos adicionais junto dos parceiros e apostar em mecanismos de financiamento do risco de desastres, incluindo acções antecipadas, transferência de risco e seguros soberanos.
Avisos prévios contra desinformação
Para o INGD, a preparação não depende apenas de dinheiro. A informação também poderá determinar a eficácia da resposta.
Tomás identifica a desinformação como um dos principais obstáculos à gestão de emergências, alertando que mensagens falsas ou provenientes de fontes não oficiais podem comprometer a eficácia dos avisos das autoridades. A experiência da época 2025/26, segundo explica, mostrou igualmente a importância do aviso prévio na protecção das populações.
Enquanto isso, o WFP trabalha com o Governo e outros parceiros no âmbito do Quadro Nacional de Acção Antecipatória, incluindo a disseminação de avisos prévios, transferências monetárias antecipatórias, protecção dos meios de subsistência e reforço da preparação local.
“Moçambique já dispõe de um sistema nacional de acção antecipatória operacional”, destaca Burtet, referindo que, em Julho de 2026, o Governo activou acções antecipatórias relacionadas com a seca em distritos afectados pelo risco climático.
O principal desafio, segundo o responsável, é garantir financiamento atempado e flexível para transformar os alertas em apoio concreto às famílias antes da ocorrência das perdas.
“A eficácia da acção antecipatória depende da disponibilidade de recursos antes que as perdas ocorram”, sublinha.
Carlos Serra alerta para falhas na gestão da água e destruição dos ecossistemas

Para o ambientalista Carlos Serra, a vulnerabilidade do País aos fenómenos climáticos extremos resulta não apenas da sua localização geográfica, mas também da degradação dos ecossistemas e das fragilidades na gestão da água.
Com cerca de 2.700 quilómetros de costa, Moçambique está exposto a ciclones, enquanto o Sul enfrenta uma tendência de desertificação. A posição do País, a jusante de vários Estados, agrava igualmente o risco de cheias.
“Nós temos água a mais e temos água a menos. Por vezes água a mais, outras vezes água a menos”, resume.
Serra considera que o País ainda não aproveita suficientemente a água disponível nos períodos de abundância para enfrentar os períodos de escassez. Defende, por isso, sistemas de retenção e maior aproveitamento das zonas húmidas e bacias naturais.
A ocupação de áreas de retenção natural pela urbanização, alerta, aumenta o risco de inundações. O ambientalista chama igualmente atenção para a destruição dos mangais e das dunas, que funcionam como barreiras naturais contra eventos extremos.
“Se nós formos destruir estas formações de mangal, o território, a costa, fica completamente exposta”, alerta, acrescentando que a prevenção deve começar muito antes da emissão de avisos de emergência.
“Antes mesmo de haver um aviso prévio, nós temos que ter uma estratégia de educação para a resiliência climática permanente”, defende.
Essa preparação, acrescenta, deve envolver comunicação em línguas locais e exemplos que permitam às comunidades compreender como agir perante situações de risco. O ambientalista defende ainda maior protecção dos ecossistemas costeiros, zonas húmidas, rios e lagos, bem como um ordenamento territorial adaptado aos riscos climáticos.
“Não vale a pena pensar que isto só se resolve com valas de drenagem”, afirma, defendendo o restauro dos ecossistemas como parte da estratégia de prevenção.
MAAP não responde sobre preparação para El Niño
Se os alertas já estão lançados, uma questão permanece: o que está a ser feito no sector agrícola para reduzir os impactos de uma eventual seca? O Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas (MAAP) foi contactado pelo Evidências para esclarecer quais as medidas que estão a ser adoptadas para preparar o País, particularmente no sector agrícola, para os possíveis impactos do El Niño. Até ao fecho desta reportagem, a instituição liderada por Roberto Mito Albino não havia respondido.



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