Pressão financeira externa terá forçado Governo a aceitar Mondlane no Conselho de Estado e a legalizar ANAMOLA

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Venâncio Mondlane afirma que a Alemanha condicionou a continuidade do apoio financeiro
  • Líder da ANAMOLA diz que a legalização da formação política não resultou de boa vontade do Executivo

Venâncio Mondlane afirma que o Governo moçambicano só aceitou a sua entrada no Conselho de Estado e a legalização do partido Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA) depois de sofrer pressão dos parceiros internacionais, com destaque para a Alemanha. Segundo o político, o financiamento externo terá sido determinante para ultrapassar a resistência do Executivo à sua participação nas instâncias de consulta do Estado e ao registo da nova formação política.

Luísa Muhambe

A revelação foi feita durante a Mesa Redonda sobre Justiça Eleitoral, realizada em Angola, onde Mondlane explicou que decidiu recorrer directamente aos parceiros internacionais para denunciar o que considerava ser a resistência do Governo à abertura política. Na sua versão, a dependência financeira de Moçambique terá dado aos parceiros externos margem para pressionar o Executivo a aceitar as duas exigências.

O dirigente destacou o financiamento do Diálogo Nacional Inclusivo pela União Europeia e o peso da contribuição alemã nesse apoio. Foi com base nessa relação financeira que, segundo contou, procurou estabelecer contacto com as autoridades alemãs para apresentar a sua versão dos acontecimentos.

“O diálogo nacional inclusivo tem um orçamento e esse orçamento não provém do orçamento geral do Estado, mas sim do financiamento da União Europeia. Fui ao parlamento alemão porque sei que a maior parte do apoio da União Europeia, cerca de 70% desse valor, provém exactamente do Governo alemão. Pedimos um encontro com o Governo alemão e fomos recebidos pelo vice-presidente, pertencente ao partido de esquerda que está a crescer agora na Alemanha”, revelou.

A legalização da ANAMOLA foi marcada por obstáculos administrativos. Inicialmente, a formação política tentou registar-se sob a designação “Anamalala”, expressão associada aos protestos pós-eleitorais e que, segundo a interpretação apresentada, transmite a ideia de que “acabou” ou “basta”. O pedido foi rejeitado pelo Ministério da Justiça, tendo sido posteriormente adoptada a designação ANAMOLA, formalmente aprovada em Agosto de 2025.

Mondlane sustenta que a mudança de nome não explica, por si só, a superação dos obstáculos que impediam a legalização do partido. Na sua versão, foi a pressão exercida junto das autoridades alemãs que levou os parceiros internacionais a exigir ao Governo moçambicano a sua tomada de posse como conselheiro de Estado e a aprovação da nova formação política.

“O Governo da Alemanha remeteu para que eu tomasse posse como conselheiro de Estado e exigiu a aprovação do partido que formámos. Como é que, de repente, o Governo que não conseguia aceitar permitiu formar o partido ANAMOLA? Fomos ao Parlamento alemão, onde fomos apresentar a outra versão da história, e eles disseram que, para eles [Governo moçambicano] terem o dinheiro que querem, então, Venâncio Mondlane tem que tomar posse como conselheiro de Estado e o partido dele tem que ser aprovado”, contou.

A versão apresentada pelo líder da ANAMOLA atribui, assim, a mudança de posição do Executivo à influência financeira e diplomática dos parceiros de cooperação, contrariando a interpretação de que a legalização do partido teria resultado apenas da vontade política das autoridades moçambicanas.

Mondlane rejeita versão de boa vontade do Governo

O político criticou ainda os que, segundo afirma, apresentam a aprovação da ANAMOLA como resultado da abertura espontânea do Executivo. Para Mondlane, essa narrativa ignora o papel que atribui à pressão internacional no desbloqueio do processo.

“Alguns mercenários digitais ou milícias digitais lá em Maputo tiram as palavras nos jornais dizendo que foi boa vontade do Governo aprovar o partido ANAMOLA, mas a razão central é esta”, declarou.

As afirmações de Mondlane colocam no centro do debate a influência dos parceiros internacionais nas decisões políticas internas de Moçambique, sobretudo num contexto em que o Estado depende de financiamento externo para apoiar programas e iniciativas de interesse público.

Contudo, a alegada existência de uma condição formal imposta pela Alemanha para a tomada de posse de Mondlane e a legalização da ANAMOLA carece de confirmação documental independente. Até que essa confirmação exista, a relação directa entre o apoio financeiro e as duas decisões deve ser apresentada como a versão do líder da ANAMOLA, e não como um facto oficialmente comprovado.

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