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- Postura militar reactiva está a permitir a reorganização dos terroristas em Mucojo e Quiterajo
- Quiterajo permanece sem administração efectiva, enquanto insurgentes controlam
- Mucojo e Quiterajo oferecem corredores marítimos vulneráveis ao narcotráfico
- Nações Unidas alertam que contenção militar permite reorganização dos insurgentes
Nove anos depois do início do terrorismo em Cabo Delgado, o actual consulado enfrenta uma contradição inquietante, após a aprovação, em 2025, de uma estratégia nacional que prevê perseguir os terroristas, mas, no terreno, mantém uma resposta predominantemente reactiva, enquanto os insurgentes consolidam algumas posições em territórios conhecidos. O epicentro desta contradição situa-se nos postos administrativos de Mucojo e Quiterajo, no distrito de Macomia, numa extensa região de matas, montanhas e corredores naturais ao longo do rio Messalo, integrada parcialmente no Parque Nacional das Quirimbas e com acesso estratégico ao Oceano Índico. A localização oferece possibilidades de circulação marítima, incluindo rotas potencialmente aproveitáveis pelo tráfico de drogas. Sem presença administrativa efectiva, sobretudo em Quiterajo, as comunidades enfrentam uma realidade dramática, com os Al Shabaabs a controlarem machambas, cobrarem taxas, condicionarem deslocações e raptarem crianças, algumas destinadas ao recrutamento forçado. Há famílias que cultivam clandestinamente as próprias terras e menores cujo paradeiro permanece desconhecido. Organizações comunitárias denunciam novos aliciamentos, enquanto sobreviventes relatam anos de cativeiro. A presença militar ruandesa em Mucojo não eliminou estas ameaças. Entretanto, as Nações Unidas alertam que a contenção militar, sem perseguição efectiva, pode permitir a reorganização dos insurgentes, prolongando uma guerra que continua a devastar comunidades e se abrandou no discurso político.
Nelson Mucandze
Nove anos depois do início da insurgência em Cabo Delgado, a região costeira de Mucojo e Quiterajo, no distrito de Macomia, continua a expor uma das maiores contradições da resposta do Estado moçambicano ao terrorismo. Enquanto a Estratégia Nacional para a Prevenção e Combate ao Terrorismo e ao Extremismo Violento, aprovada em 2025, a primeira que reflecte a visão do consulado de Daniel Chapo, estabelece a perseguição dos grupos armados como uma das suas prioridades, no Teatro Operacional Norte (TOR), o Evidências encontrou uma realidade diferente, onde insurgentes continuam a controlar certas áreas, impõem regras às comunidades, restringem o acesso às machambas e continuam a raptar crianças.
A situação confirma os receios manifestados pelas Nações Unidas de que a actual postura militar, predominantemente reactiva, possa estar a permitir a reorganização dos terroristas.
Nestes nove anos de terrorismo em Cabo Delgado, a guerra parece ter adquirido uma nova configuração. Já não se trata apenas de insurgentes que atravessam aldeias, atacam posições militares e desaparecem nas matas. Em determinadas regiões de Macomia, os grupos armados estabeleceram zonas de influência relativamente permanentes, onde a autoridade do Estado é limitada e a população aprende a sobreviver sob regras impostas por homens armados.
É o que acontece em Mucojo e Quiterajo, dois postos administrativos costeiros do distrito de Macomia, cuja importância estratégica ultrapassa a dimensão militar. Situados numa região de florestas, rios e acesso ao Oceano Índico, constituem, segundo fontes ouvidas pelo Evidências, uma das principais áreas de concentração dos insurgentes.
A situação é particularmente preocupante porque, apesar da recuperação de importantes centros populacionais desde a intervenção militar ruandesa, em 2021, o Estado ainda não conseguiu restabelecer uma presença administrativa efectiva e abrangente nestes territórios. Não há lá qualquer representação do Estado, nem ao mínimo órgão.
Em Mucojo, as fontes descrevem uma presença militar ruandesa limitada a determinadas posições, sem que isso represente o restabelecimento pleno da autoridade administrativa. Quiterajo, por sua vez, é apontado como uma área onde os insurgentes mantêm uma influência particularmente acentuada. Fontes militares consultadas pelo Evidências reconhecem dificuldades de acesso a determinadas posições, associadas à capacidade de resistência armada dos insurgentes.
A consequência é uma situação paradoxal, onde o Governo recuperou localidades importantes, mas continua sem neutralizar os espaços onde os insurgentes encontram condições para permanecer, reorganizar-se e preparar novas incursões.
Um contraste com uma estratégia que promete perseguir, mas privilegia a contenção
Em 2025, o Governo moçambicano adoptou a Estratégia Nacional para a Prevenção e Combate ao Terrorismo e ao Extremismo Violento, criando o Centro Nacional de Prevenção e Combate ao Terrorismo e ao Extremismo Violento (CNPCTEV), responsável pela coordenação da sua implementação.
O documento assenta em cinco pilares, resumidos em detectar, prevenir, proteger, perseguir e mitigar. Trata-se de uma abordagem que procura combinar operações de segurança com desenvolvimento económico, reconstrução de infra-estruturas, recuperação dos serviços públicos e prevenção do recrutamento extremista. Entretanto, é precisamente no pilar da perseguição que surge uma das maiores interrogações sobre a coerência da resposta governamental.
Na declaração de encerramento da sua missão a Moçambique, divulgada a 14 de Agosto de 2026, o Relator Especial das Nações Unidas sobre a promoção e protecção dos direitos humanos e das liberdades fundamentais no âmbito da luta contra o terrorismo, Ben Saul, identificou a contradição entre a ambição estratégica e a postura operacional.
“A actual postura militar é de defesa ofensiva, contendo e reagindo ao NSAG, em vez de o perseguir activamente. Embora isto atenue as hostilidades, corre-se o risco de permitir que o grupo se reorganize”, escreveu o especialista, ao referir-se os Al Shabaabs, agora liderados por Alluh Sunna Wal Jammah, cujas origens, conforme apurou o Evidências, são tanzanianas.
O relatório acrescenta que “a frequência, a gravidade e a propagação dos ataques contra civis aumentaram ao longo do último ano”. A constatação é relevante porque distingue dois objectivos militares frequentemente confundidos, o de impedir que os terroristas recuperem grandes centros urbanos e retirar-lhes a capacidade de organizar ataques a partir de territórios onde continuam instalados. O primeiro conheceu progressos importantes. O segundo permanece por concretizar em várias zonas de Cabo Delgado.
O próprio Ben Saul reconhece os avanços alcançados desde 2021, incluindo o regresso de 715.551 deslocados internos às suas comunidades nas três províncias do norte, até meados de 2026. Todavia, adverte que a persistência da insurgência, as limitações militares e as escolhas tácticas tornam improvável uma solução militar iminente.
A questão, portanto, não é negar os resultados das operações anteriores, mas compreender por que razão a resposta parece ter perdido capacidade de iniciativa precisamente quando os insurgentes passaram a concentrar parte da sua actividade em áreas geograficamente identificadas.
Em Nanjaba, os terroristas decidem onde as famílias podem cultivar

Para Mbalo Coinça, camponês residente na aldeia de Nanjaba, em Mucojo, a discussão sobre estratégias militares tem consequências concretas. A sua família, composta por dez pessoas, depende da produção de gergelim, milho, arroz e mandioca. Entretanto, parte das machambas passou a estar sujeita às restrições impostas pelos insurgentes.
“Recentemente, os Al Shabaabs entraram na nossa aldeia e estabeleceram limites para as áreas onde podemos trabalhar. Disseram-nos que já não podíamos passar para determinadas zonas nem continuar a cultivar algumas das nossas machambas”, relata Coinça, explicando que os insurgentes delimitaram áreas que passaram a considerar suas, incluindo terrenos agrícolas já cultivados pelas comunidades. Tudo acontece à luz do dia, diante de uma aparente inexistência da autoridade do Estado.
“Apesar dessas restrições, continuamos a entrar nas nossas machambas às escondidas. Saímos de manhã e regressamos à tarde, tentando recuperar alguma coisa daquilo que produzimos”, revela, num testemunho que revela como os insurgentes substituíram a autoridade pública por regras estabelecidas através da intimidação.
Não é necessário ocupar formalmente um edifício administrativo para exercer controlo sobre uma comunidade. Quando um grupo armado determina onde as pessoas podem circular, cultivar ou comercializar, passa a exercer poderes que deveriam pertencer exclusivamente às instituições legítimas.
Coinça descreve igualmente a fragilidade da protecção disponível. “As forças locais não permanecem connosco durante a noite. Quando começa a escurecer, abandonam a aldeia e só regressam no dia seguinte”, denuncia Coinça, para depois sentenciar: “por isso, ficamos desprotegidos precisamente no período em que temos mais receio de ser atacados.”
Coinça relata um episódio recente envolvendo dois menores. “Há poucos dias, os insurgentes capturaram duas crianças na nossa região. Uma foi levada para as matas e a outra conseguiu escapar e regressar à aldeia”.
Segundo o camponês, os insurgentes utilizam promessas aparentemente inocentes para convencer algumas crianças a acompanhá-los.
“Quando capturam crianças, os insurgentes dizem-lhes que vão oferecer-lhes `fisgas para caçar passarinhos`. Mas, na realidade, quando falam dessas fisgas, estão a referir-se a armas.”
O litoral estratégico que o Estado não consegue controlar
A concentração insurgente entre Mucojo, Quiterajo e a região do rio Messalo acrescenta uma dimensão particularmente sensível ao conflito. O território combina zonas florestais, comunidades dispersas e acesso ao oceano Índico, numa faixa costeira parcialmente integrada no Parque Nacional das Quirimbas.
A importância marítima desta região já havia sido reconhecida no âmbito do projecto de vigilância costeira associado às chamadas dívidas ocultas. Através da ProIndicus, estava prevista a instalação de uma rede de radares destinada à fiscalização da costa moçambicana. Quiterajo surge referenciado nos elementos recolhidos para esta investigação como uma das zonas consideradas, embora a localização exacta das instalações previstas não esteja claro.
A região integra ainda uma faixa costeira historicamente referenciada nas discussões sobre rotas de tráfico de drogas. A presença insurgente levanta, assim, preocupações relacionadas com a fiscalização marítima e possíveis ligações a economias ilícitas. Esta ligação, demostra o quanto o problema da fragilidade da autoridade estatal cria condições favoráveis à circulação clandestina de pessoas e mercadorias, dificultando simultaneamente o combate ao terrorismo e ao crime organizado.
Longe de detalhes geográficos, há vidas que estão a ser sacrificadas. A experiência de Amina Mwene, sobrevivente de aproximadamente quatro anos de cativeiro, ajuda a compreender o que significa permitir que os insurgentes mantenham estruturas permanentes nas matas. Capturada em Nanjaba, foi levada para a região de Mbau, em Mocímboa da Praia. Durante o cativeiro, nasceu a sua filha Zainaba.
“Não havia machambas nem comércio. Os insurgentes entravam nas aldeias para roubar alimentos, que depois transportavam para as bases onde vivíamos”, recorda.
Amina descreve esconderijos subterrâneos, viaturas roubadas e mecanismos utilizados pelos insurgentes para sobreviver às operações militares. A descrição que ela faz, demonstra que as bases não servem exclusivamente para preparar ataques. São também espaços de detenção, abastecimento e reorganização, onde civis capturados podem permanecer durante anos.
Sociedade Civil
Neste nono ano do conflito, a questão central deixou de ser apenas quantas localidades foram recuperadas. Importa saber quantas comunidades conseguem viver sem autorização dos insurgentes, quantas crianças permanecem expostas ao recrutamento e até quando o Estado permitirá que territórios identificados continuem fora da sua autoridade efectiva. A Estratégia Nacional prevê detectar, prevenir, proteger, perseguir e mitigar. Em Mucojo e Quiterajo, os testemunhos mostram que a distância entre estes compromissos e a realidade continua profunda.

A fragilidade da resposta governamental é igualmente reconhecida por Sofia Sualé, da Acção Social em Macomia, que alerta para a persistência da insegurança nas localidades periféricas, apesar da relativa tranquilidade na vila de Macomia. A responsável recorda o rapto de três raparigas, de aproximadamente 13, 14 e 16 anos, em Junho, cujo paradeiro continua desconhecido.
“As raparigas foram levadas e, até hoje, não sabemos onde estão nem em que condições se encontram”, lamenta.

Por sua vez, Abudo Gafuro, da Associação Kuendeleya, denuncia a continuidade do recrutamento de jovens e crianças que depois de doutrinadas são usadas como crianças-soldado.
“Recebemos queixas praticamente todas as semanas”, afirma, revelando que a organização recebeu denúncias sobre o alegado rapto de 38 crianças em Mocímboa da Praia.
Gafuro alerta igualmente para a vulnerabilidade de comerciantes coagidos a abastecer os insurgentes e para a ausência de mecanismos eficazes de protecção dos denunciantes. “Não existe a protecção necessária nem a garantia de confidencialidade da identidade dos denunciantes”, denuncia.

A aparente tranquilidade na vila-sede de Macomia esconde uma realidade dramática, de quanto mais se avança para as localidades periféricas, maior é a exposição das populações à violência insurgente. A própria sede distrital transformou-se num refúgio para famílias expulsas das suas comunidades. Zacarias Cornélio, secretário da aldeia de Novo Cabo, no posto administrativo de Chai, conta que abandonou a sua terra em 2022 e procurou abrigo na vila de Macomia, mas acabou por ser deslocado novamente devido à falta de espaço. Só a norte do distrito, segundo explica, o conflito desestruturou pelo menos oito comunidades, incluindo Novo Cabo, Ngalewa, V Congresso, Litandacua, Litamanda, Ncoi e Ngwinda, cujas populações se dispersaram por diferentes zonas. “Em Novo Cabo, ficaram muito poucas pessoas”, relata. A guerra não destruiu apenas habitações, mas desfez comunidades, interrompeu a agricultura, separou famílias e transferiu para a sede distrital parte da população que antes sustentava a vida económica e social das aldeias. Actualmente, muitas dessas famílias sobrevivem em abrigos precários, sem condições para regressar às suas terras.



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