Comida da PRM desviada e vendida a preço de “banana” em Maputo nas “barbas do Ministério do Interior”

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Negócio à sombra da farda transforma refeições da PRM em bolada
  • Refeição destinada a agentes é vendida entre 30 e 70 meticais à vista do Ministério do Interior
  • Viaturas e motoristas do Estado são usados na logística do mercado clandestino de refeições
  • Comando-Geral da PRM e o da Cidade remetem-se ao silêncio perante as evidências

Refeições confeccionadas com recursos do Estado para alimentar agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM) estão a ser desviadas e comercializadas clandestinamente nas ruas da cidade de Maputo, a preços que variam entre 30 e 70 meticais. Uma investigação do Evidências identificou pontos de venda que funcionam nas imediações do Ministério do Interior, junto ao Cemitério da Ronil e noutras zonas da capital, onde compradores habituais têm acesso a refeições originalmente destinadas aos efectivos policiais. O negócio, que decorre praticamente à vista das autoridades, levanta suspeitas sobre a existência de uma rede informal que aproveita fragilidades no controlo da distribuição alimentar da corporação. Testemunhos recolhidos indicam que algumas refeições são levantadas em quantidades superiores às necessidades dos agentes, enquanto outras, destinadas às chefias, acabam igualmente comercializadas. Há ainda relatos da utilização de viaturas e motoristas do Estado para transportar e entregar a comida aos compradores. Confrontados com os factos, o Comando-Geral da PRM e o Comando da Cidade de Maputo pediram tempo para se inteirar do assunto, mas não apresentaram esclarecimentos conclusivos até ao fecho da edição.

Ekiba Seda

Um esquema clandestino enraizado na cadeia logística da Polícia da República de Moçambique (PRM) está a transformar as refeições subsidiadas do Estado num negócio informal de rua. Refeições confeccionadas para sustentar agentes em serviço de patrulhamento e ordem pública estão a ser desviadas e comercializadas junto a civis por valores irrisórios, entre 30 e 70 meticais, em pleno centro da capital.

Uma investigação no terreno identificou alguns dos vários pontos de venda da comida, referiu que nalguns casos há utilização indevida de meios circulantes do Estado na distribuição, o que o levou a confrontar as autoridades policiais, que optaram pelo silêncio.

No terreno, constatámos que há uma rede de distribuição informal que opera nas artérias estratégicas de Maputo.

O negócio decorre de forma clara nas imediações do Ministério do Interior, onde trabalhadores das proximidades e vendedores informais compram marmitas de comida institucional cujos preços flutuam consoante o cliente e a zona.

A comida pode ser adquirida neste local e em vários outros na Cidade de Maputo no intervalo das 13 às 15 horas, dependendo da disponibilidade e às 18 horas.

Ainda no centro da cidade, na zona do Cemitério da “Ronil”, no cruzamento entre as históricas avenidas Eduardo Mondlane e Karl Max, no horário do almoço é possível encontrar a mesma comida a ser vendida clandestinamente a uma “carteira de clientes” habituais.

A verificação dos factos

Chegados ao local, para testemunhar a situação, foi-nos informado pelos vendedores informais, nos arredores do Ministério do Interior, que deveríamos ter cuidado, pois, por serem novos rostos no local, a presença poderia ser suspeita.

“Aproxima ali com cuidado, é só dizer que querem comida; se tiver, eles vão dar. São 50 meticais”, indicou a nossa fonte, acrescentando que se fosse um bom cardápio poderia chegar a 70 meticais.

Sem sucesso, pois a comida ainda não estava disponível. Orientou-nos, naturalmente, que nos dirigíssemos à zona do Cemitério da “Ronil” que de certeza teríamos a comida.

Lá chegados, encontrámos também algumas pessoas que habitualmente compram no mesmo local. No meio da conversa explicaram-nos que naquele ponto a comida era melhor que a de outros locais, pois não era a refeição dada aos agentes comuns, mas sim era a “comida dos chefes”.

“Aqui terão boa comida, essa não é qualquer, cozinham para aqueles que são chefes”, disse um dos responsáveis pelo levantamento da comida visando nos tranquilizar.

Passados alguns minutos, ele, para nos acalmar, disse que logo a comida chegaria, a demora devia-se ao controlo elevado que tinha havido naqueles dias. Mas orientou-nos a ir para uma das esquadras da Vladimir Lenine que poderíamos encontrar também, mas antes de terminar a afirmação, já estava a aparecer o jovem com take-aways de comida.

“Levantam comida a mais para vender”, contam testemunhas

Depoimentos recolhidos junto de compradores e testemunhas confirmam que a venda daquela comida é encarada com naturalidade por parte de quem distribui. “Não sei porque vendem aquela comida ou como tem a mais. Cada um tem direito a sua comida. Quem precisa de umas moedas acaba por vender”, relatou uma das fontes enquanto aguardávamos a comida.

Ainda outra fonte que entende do esquema explica que “a comida é boa, por isso não se entende porque se desfazem dela por 50 ou 70 meticais. O que acontece é que, quando vão levantar a comida na Central, levantam a mais. Distribuem pelos agentes que estão de serviço e o que sobra vendem. Além disso, há chefes que não comem a refeição e os subordinados aproveitam para a vender”.

Uma das fontes revelou que por vezes é só solicitar com antecedência que eles trazem ao encontro e usam viaturas do Estado para o efeito. “Quem costumava trazer para mim são aqueles seguranças dos tribunais, no meu caso não eram fardados”, questionado sobre os possíveis propósitos da venda da comida prontamente respondeu que “todo mundo sabe que vendem por dinheiro”.

Autoridades remetem-se ao silêncio

Perante a gravidade dos factos, a equipa de investigação contactou o Comando-Geral da PRM e o Comando da Cidade de Maputo para obter o devido contraditório. O porta-voz do Comando-Geral da PRM, Leonel Muchina, afirmou inicialmente desconhecer o fenómeno.

“Operativamente, nunca ninguém me relatou isto. Dá-me algum tempo, por alguns dias eu verifico isso e com propriedade podemos voltar a conversar. Mas por agora apanhou-me às cegas”, justificou Muchina.

Apesar de se ter comprometido a indicar um substituto para acompanhar o caso antes de entrar em gozo de licença, por ocasião das suas férias, segundo disse, Muchina não voltou a atender as chamadas telefónicas nem prestou novos esclarecimentos à nossa redacção.

Situação idêntica registou-se com Daniel Macuácua, da PRM ao nível da Cidade de Maputo. Contactado repetidamente para esclarecer as falhas no controlo da distribuição na capital, Macuácua alegou estar a tratar de “expedientes urgentes” e prometeu retornar o contacto, o que nunca chegou a acontecer até ao fecho desta edição.

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