Lula: a ponte que ficou de pé

OPINIÃO
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O que a reeleição de Lula da Silva significa para Moçambique

Shipeni Thovela

No domingo, 25 de Outubro, o Brasil foi às urnas e decidiu manter Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência até 2030. Lá, o resultado divide famílias e mesas de jantar. Cá, do outro lado do Atlântico, a pergunta que nos interessa é mais modesta: o que muda para Moçambique?

Pouco, e ainda bem. Entre Estados, sobretudo entre países com recursos tão diferentes, a previsibilidade conta mais do que os discursos. Quem prepara um projecto agrícola, uma linha de crédito ou uma parceria no gás precisa de saber que, do outro lado, o interlocutor de hoje será o mesmo daqui a dois ou três anos.

Os números desta eleição merecem atenção. Na primeira volta, a 4 de Outubro, o senador Flávio Bolsonaro ficou à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Três dias antes da segunda volta, a sondagem Quaest ainda lhe dava um ponto de vantagem.

No domingo, as contas inverteram-se. Com quase todas as secções apuradas, Lula tinha 51,76% dos votos, cerca de 4,4 milhões à frente do adversário. Foi a primeira vez, numa eleição presidencial brasileira, que o candidato em segundo lugar na primeira volta acabou por vencer. Aos 80 anos, Lula passa a ser também o único brasileiro eleito quatro vezes para o cargo.

Houve ainda outro dado, menos comentado. Numa disputa tão renhida, com mais de 120 milhões de votos válidos, o vencedor foi conhecido cerca de quatro horas depois do fecho das urnas. Goste-se ou não do resultado, é sinal de um sistema eleitoral em que os cidadãos confiam.

Para nós, o que estava em jogo era a agenda bilateral. Em Novembro de 2025, Lula esteve em Maputo pela quarta vez, num ano marcado pelos 50 anos da nossa independência e pelo meio século de relações diplomáticas entre os dois países. Com o Presidente Daniel Chapo, os dois governos assinaram nove instrumentos de cooperação, em áreas como saúde, educação,  aviação civil, empreendedorismo e  promoção comercial.

A relação vem de longe. Moçambique é hoje o país africano que mais se beneficia da cooperação técnica brasileira, com 67 iniciativas formalizadas desde 2015 pela Agência Brasileira de Cooperação. Em Maputo, Lula admitiu que o Brasil chegou a dar as costas ao continente africano e que a aproximação ficou parada durante anos.

Uma mudança de governo em Brasília não anularia esses acordos, mas poderia abrandar a sua execução, porque a cooperação entre Estados vive de vontade política e de orçamento dos dois lados.

Com mais quatro anos pela frente, há áreas em que Moçambique pode tirar proveito concreto desta estabilidade. Comecemos pela agricultura. Em Maputo, o Presidente Chapo lembrou que o país ainda enfrenta insegurança alimentar e mostrou interesse em aprender com o Brasil, que deixou de importar alimentos para passar a exportá-los. Para 2026 ficaram previstas 80 vagas de formação em ciências agrárias e 400 em cursos técnicos de agropecuária, com apoio da Embrapa. São números modestos, mas este tipo de formação só dá frutos ao fim de vários anos de trabalho seguido.

Na energia, Lula foi directo: disse que o Brasil precisa de gás e que Moçambique o tem, e lembrou que a Petrobras voltou a investir fora do país. Falou também da produção de biocombustíveis. Numa altura em que procuramos mais compradores e mais parceiros para o gás do Rovuma, um interesse declarado pelo próprio chefe de Estado merece seguimento.

Nas infra-estruturas, Lula voltou a defender que o BNDES, o banco público de desenvolvimento do Brasil, retome o financiamento a empresas brasileiras com projectos no estrangeiro. Estradas, portos e logística são exactamente as áreas onde o país mais precisa de financiamento de longo prazo e de empresas habituadas a trabalhar em condições parecidas com as nossas.

Resta o sector mineiro, que o Presidente Chapo incluiu entre as prioridades da nova fase de cooperação, ao lado dos transportes, da energia e do gás natural. O Brasil tem uma indústria mineira madura, com escolas técnicas, regulação testada e grandes operadores próprios. Para lá do comércio, há muito a ganhar na formação de técnicos, na troca de experiência entre reguladores e em parcerias entre empresas dos dois países.

Convém, ainda assim, não confundir boa vontade com dinheiro garantido. Lula vai governar com um Congresso onde o partido do seu adversário tem a maior bancada, tanto na Câmara dos Deputados como no Senado. O regresso do BNDES ao financiamento externo, por exemplo, terá de passar por negociações internas difíceis.

Do lado moçambicano, o rumo está traçado. Em Maputo, o Presidente Chapo disse querer mudar o modelo de cooperação e apostar em projectos concretos, com resultados que se possam medir. É uma orientação acertada, que ganha agora um horizonte de quatro anos para ser posta em prática, com equipas técnicas dos dois países a trabalhar em conjunto.

O sector privado também tem a sua parte. Empresas e investidores brasileiros vão olhar com mais atenção para Moçambique nos próximos anos, e quem tiver a situação legal e fiscal em ordem e propostas bem montadas estará na primeira fila. Partilhamos a língua e uma tradição jurídica de raiz portuguesa, o que facilita contratos e negociações. Poucos parceiros nos oferecem isso.

O resultado de domingo é, antes de mais, assunto dos brasileiros, e foi decidido por uma margem curta. Para Moçambique, significa que a ponte reconstruída nos últimos anos continua de pé, com a mesma vontade política dos dois lados. Com a estabilidade assegurada em Brasília até 2030, há tempo e condições para que por ela passem cada vez mais projectos, técnicos formados e investimento, em benefício dos dois povos.

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