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A história política de Moçambique poderá reservar a Ossufo Momade um lugar particularmente desconfortável, que é de um dirigente que herdou a maior força histórica da oposição e assistiu, sem capacidade aparente de inverter o rumo, à sua progressiva desintegração. O mais inquietante não é apenas a sucessão de derrotas, divisões e deserções. É a obstinação de uma liderança que, mesmo perante sinais inequívocos de desgaste, parece convencida de que a sobrevivência do dirigente é mais importante do que a sobrevivência do partido.
Desde que assumiu a liderança da Renamo, na sequência da morte de Afonso Dhlakama, em 2018, Ossufo Momade tem protagonizado uma sucessão de crises que revelam dificuldades de gestão política, incapacidade de mobilização e crescente intolerância perante a divergência. A Renamo que herdou era uma organização com profundas contradições, mas conservava uma identidade política, uma base eleitoral expressiva e capacidade de confrontar democraticamente o poder instalado. Hoje, essa herança encontra-se seriamente comprometida.
O primeiro grande sinal de ruptura surgiu com Mariano Nhongo, que contestou a liderança de Momade e passou a comandar uma dissidência armada. A crise evoluiu para confrontos violentos e terminou com a morte de Nhongo numa operação das forças governamentais, em 2021, numa clara ajuda à liderança de Momade, em mais um episódio que expôs a incapacidade da sua liderança de gerir divergências internas antes que se transformassem numa ameaça à segurança nacional.
Mas Momade parece não ter aprendido com a história. A sua governação partidária apresenta semelhanças preocupantes com o modelo de concentração de poder que marcou a liderança de Filipe Nyusi na Frelimo. Ambos conseguiram, em contextos diferentes, moldar as respectivas organizações à sua medida, reduzindo o espaço de contestação e favorecendo uma cultura de obediência. A diferença é que a Frelimo, apesar das suas contradições internas, preservou o poder do Estado, enquanto a Renamo foi perdendo até a capacidade de se afirmar como principal alternativa política.
As eleições gerais de 2024 representaram o golpe mais evidente. A Renamo caiu para a terceira posição parlamentar, ultrapassada pelo PODEMOS, enquanto Venâncio Mondlane, antigo quadro da Renamo, mobilizava uma parcela significativa do eleitorado oposicionista. A posterior afirmação da ANAMOLA veio aprofundar uma realidade que Momade recusa reconhecer: o espaço político que a Renamo ocupava está a ser conquistado por outras forças.
Em vez de responder a esta transformação com abertura, renovação e autocrítica, a liderança insiste na disciplina partidária como instrumento de sobrevivência. A expulsão de António Muchanga inscreve-se nessa lógica de afastamento de vozes incómodas, quando o partido mais necessita de debate, pluralismo e reconstrução da confiança.
Há uma contradição particularmente grave numa organização que reivindica historicamente a democracia e combate o autoritarismo fora das suas estruturas enquanto tolera práticas de fechamento político no seu interior.
A democracia não pode limitar-se à realização de congressos, à eleição formal de dirigentes ou à invocação permanente dos estatutos. Exige liberdade de discordância, responsabilização pelas derrotas e disponibilidade para a alternância. Ossufo Momade tem o direito de defender a sua liderança. Não tem, porém, o direito político de confundir o seu destino pessoal com o futuro da Renamo.
O problema deixou de ser apenas saber se Momade consegue recuperar o partido. A questão, cada vez mais urgente, é perceber quanto da Renamo ainda poderá sobreviver à sua insistência em permanecer no poder. Porque uma liderança pode perder eleições e conservar legitimidade. Mas quando perde eleições, militantes, influência e capacidade de ouvir, persistir deixa de ser resistência e transforma-se num exercício de destruição política.



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