Quando a arrogância vira política do Estado

EDITORIAL
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Moçambique vive um daqueles momentos em que a realidade económica parece uma piada de mau gosto, mas infelizmente não há graça alguma em ver um país ser estrangulado pela incompetência e pela soberba dos seus gestores. No centro desse desastre, temos o Banco de Moçambique (BM) e o seu governador, Rogério Zandamela, que recentemente nos presenteou com uma pérola de sabedoria técnica: “As pessoas reclamam da escassez de dólar enquanto nem metical têm.”

A declaração, além de revelar um profundo desprezo pelas dificuldades reais dos moçambicanos, sintetiza a postura de um governo que prometeu proximidade com o povo, mas que na prática só tem oferecido distância e arrogância. Afinal, qual é a lógica de culpar a população pela escassez de divisas, quando o próprio BM não consegue garantir um fluxo minimamente estável de dólares para manter a economia funcionando?

A situação é grave e os números não mentem. Entre Janeiro e Fevereiro de 2024, as importações caíram 2,3%, e no primeiro trimestre do ano, a queda foi de 2,5% em relação ao mesmo período de 2023. Isso significa menos combustível nos postos, menos alimentos nas prateleiras, menos medicamentos nos hospitais e menos insumos para a indústria. Empresas estão sendo penalizadas por atrasos em pagamentos que não cometem por má-fé, mas sim porque simplesmente não conseguem acesso a dólares. Muitas acumulam multas contratuais e perdem credibilidade internacional, enquanto outras fecham as portas. E depois têm os nossos irmãos no estrangeiro que também não podem pagar porque os seus cartões, que constituem o legado do Xerife, não podem pagar.

Mas não se pode olhar para os efeitos sem olhar as causas. A escassez começa quando o BM decidiu impor aos bancos comerciais a conversão obrigatória de 30% das receitas de exportação em meticais. Só que a medida, em vez de melhorar a liquidez, só criou mais distorções. Os bancos até registam posições cambiais positivas, mas a distribuição desse dinheiro é tão ineficiente que o mercado inter-bancário praticamente parou: uma queda de 78,6% nas transacções no primeiro trimestre. Enquanto isso, o BM assiste de câmara-lenta, como se a crise fosse um espectáculo alheio.

O mais irónico é que tudo isso acontece sob o olhar de um governo que se elegeu prometendo ser humilde e próximo do povo. Na prática, porém, o que vemos é uma elite política e técnica que trata o cidadão comum com um misto de paternalismo e desdém. Se as empresas reclamam da falta de dólares, a resposta é um “se arranjem”. Se os trabalhadores sofrem com a carestia, a solução proposta é “produzam mais”. E se alguém ousa questionar a gestão económica, a reacção imediata é um discurso condescendente que coloca a culpa em todo mundo – menos em quem realmente deveria estar resolvendo o problema.

No final, o que sobra é a sensação de que estamos à deriva. O Banco de Moçambique, que deveria ser o farol da estabilidade económica, transformou-se num símbolo de arrogância e ineficiência. E o povo, esse segue na luta diária, tentando sobreviver numa economia que, para os gestores de plantão, parece ser apenas mais um jogo de xadrez – onde eles movem as peças, mas nunca pagam o preço dos próprios erros.

Enquanto isso, a frase do governador Zandamela ecoa como um lembrete cruel: “Nem metical têm.” Pois é. E pelo andar, continuaremos não tendo, nem meticais, nem dólares, nem respostas. Só sobra mesmo a certeza de que, enquanto a arrogância for a principal moeda neste país, a crise nunca terá fim.

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