A incerteza continua e nascemos mais do que produzimos. O que está a falhar?

EDITORIAL
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Moçambique vive um daqueles momentos em que o discurso optimista já não chega para esconder a profundidade dos problemas. O novo relatório do Banco Mundial mostra um país encurralado entre a necessidade urgente de crescer e a incapacidade de criar condições para que esse crescimento aconteça. As visitas presidenciais, necessárias para melhorar a projecção do País diante dos parceiros, não são suficientes, é preciso combinar com mais iniciativas como: contenção das despesas públicas para as finanças públicas, resgate do investimento privado, e demonstração da capacidade do Estado de responder às necessidades sociais.

O problema central não é apenas económico. É também político, institucional e de gestão. O País continua a gastar demasiado em despesas correntes e demasiado pouco em investimento produtivo. Segundo o relatório, a massa salarial do Estado e os juros da dívida consumiram 87 por cento das receitas fiscais em 2025. Isto significa que quase tudo o que o Estado arrecada é usado para pagar salários e dívida, sobrando muito pouco para estradas, hospitais, escolas, água, agricultura ou infra-estruturas.

Ao mesmo tempo, o País enfrenta uma combinação perigosa de crescimento fraco e aumento das exigências sociais. A economia, que crescia acima de 5 por cento, desacelerou drasticamente e chegou mesmo a contrair 0,5 por cento em 2025. O Banco Mundial prevê agora um crescimento entre 1 e 2 por cento até 2028, abaixo do crescimento populacional. Em termos práticos, isto significa que a riqueza produzida não é suficiente para melhorar a vida das pessoas. Pelo contrário, o rendimento por habitante caiu e poderá continuar abaixo dos níveis de 2015 até 2028.

O drama é ainda maior porque o País continua incapaz de criar emprego. Todos os anos entram no mercado de trabalho cerca de 500 mil jovens, mas apenas 30 mil conseguem emprego formal. Esta diferença explica o aumento da frustração social, da informalidade e da pobreza persistente. A promessa de desenvolvimento continua distante para a maioria dos moçambicanos.

O que está a falhar, então? Está a falhar a capacidade de fazer reformas antes que a crise se torne ainda mais cara. O Banco Mundial alerta que, sem uma correcção séria, Moçambique pode colocar em risco mais de 50 mil milhões de dólares em investimento directo estrangeiro, sobretudo nos megaprojectos de energia. Parte das futuras receitas do gás poderá acabar desviada para tapar buracos fiscais, em vez de financiar desenvolvimento.

Também está a falhar a capacidade de responder aos choques. O País continua vulnerável à instabilidade no norte, aos desastres climáticos, à escassez de divisas e às crises internacionais. E enfrenta tudo isso com pouca margem financeira e pouca confiança dos investidores.

É hora de assumir que o nosso País já não precisa apenas de promessas de crescimento. Precisa de disciplina fiscal, reformas credíveis, combate ao desperdício e prioridade ao investimento que gera emprego. Sem isso, a incerteza continuará a ser a única certeza.

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