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Foi com um misto de expectativa e alívio contido que, na terça-feira (28.04), após a sessão do Conselho de Ministros, a Autoridade Reguladora de Energia (ARENE) anunciou a manutenção dos preços dos combustíveis. À primeira vista, cumpria-se a promessa do Governo de preservar, durante o mês de Abril, o custo deste recurso vital para a economia e para o nosso quotidiano. Contudo, a estabilidade de preços revelou-se, rapidamente, uma estabilidade incompleta, porque falhou onde mais importa, na garantia de disponibilidade.
Na prática, o país vive um paradoxo inquietante. O preço mantém-se, mas o produto escasseia. As filas, que haviam dado sinais de abrandamento numa primeira fase, regressaram com força, precisamente no mesmo dia em que se comunicava a continuidade dos preços. Um sinal no mínimo perturbador. Em Maputo, a gasolina parece mais acessível do que o gasóleo; em Pemba, o cenário inverte-se; e na Beira, surgem relatos de preços de gasolina a atingir os 120 meticais por litro, muito acima do valor oficialmente estabelecido. Esta fragmentação do mercado revela não apenas falhas logísticas, mas também tensões mais profundas.
Há indícios claros de um desalinhamento entre o Executivo e as gasolineiras. A decisão de manter os preços, apesar das pressões internacionais que apontam para revisões em alta, terá frustrado operadores que esperavam um reajuste capaz de acomodar os novos custos de aquisição. Para estes, a imposição de preços fixos, sem mecanismos compensatórios claros, como subsídios ou revisões estruturais, transforma-se num ónus difícil de sustentar. Para o Governo, por outro lado, a manutenção dos preços surge como medida de protecção social, sustentada pelo argumento de que o combustível disponível no mercado terá sido adquirido antes das recentes oscilações internacionais.
Este jogo de posições, quase um “pingue-pongue” institucional, expõe uma disputa que, embora técnica na sua essência, tem consequências profundamente humanas. Porque, enquanto se discutem margens, custos e momentos de aquisição, o cidadão comum enfrenta uma realidade concreta, a incerteza. Incerteza sobre conseguir abastecer o seu veículo, sobre cumprir horários, sobre manter em funcionamento pequenos negócios que dependem directamente do combustível.
O velho provérbio mantém-se actual. Quando os elefantes lutam, é o capim que sofre. Neste caso, o “capim” é o consumidor, é a pequena e média empresa, é o transportador, é o agricultor. São estes que absorvem, silenciosamente, os impactos de uma economia que parece desarticulada. As gasolineiras, ao limitarem a disponibilidade, pressionam o Governo, enquanto, ao resistir a aumentos, procura proteger o poder de compra. Ambos têm razões que não podem ser ignoradas. Mas, no meio desta equação, instala-se um vazio, e é nesse vazio que cresce o caos.
Não se trata apenas de economia, mas de confiança. Confiança nas instituições, nas promessas públicas, na previsibilidade mínima que permite a uma sociedade organizar-se. Quando o discurso oficial assegura disponibilidade e a realidade o desmente nas bombas de combustível, abre-se uma fissura que não pode ser tratada com ligeireza.
O adiamento de um eventual aumento de preços pode, em curto prazo, aliviar pressões sociais. Mas a que custo? Se a escassez se mantiver, o preço “invisível” pago pelos cidadãos, em tempo, desgaste e incerteza, ou em dinheiro especulado, pode revelar-se ainda mais elevado. E, nesse cenário, pouco importa se o litro custa menos no papel, quando não está disponível na prática. É, por isso, urgente que se encontre um ponto de equilíbrio.
Seja como for, uma certeza impõe-se com inquietante clareza. Nada permanecerá igual. E o custo dessa imobilidade será pago, como sempre, pelos mesmos de sempre.



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