Dívida Pública tornou-se uma tragédia humana em Moçambique e vários países de África

DESTAQUE ECONOMIA
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  • Parlamentar acusa elites de colaborarem com um sistema global que perpetua pobreza e dependência

O deputado do parlamento sul-africano, Visvin Gopal Reddy, afirmou esta quinta-feira, em Nairobi, que a dívida pública se transformou num novo mecanismo de controlo económico sobre África, acusando o sistema financeiro internacional de perpetuar uma lógica histórica de extracção de riqueza do continente.

Falando durante a sexta edição da AFROMEDI, iniciativa continental promovida pela AFRODAD para engajamento dos media na monitoria da dívida e justiça socioeconómica, Reddy defendeu que a crise da dívida deixou de ser apenas um debate técnico para se tornar uma tragédia humana vivida diariamente por milhões de africanos.

“África está a pagar a dívida de ontem enquanto sacrifica o futuro de amanhã”, declarou o parlamentar perante jornalistas de 29 países africanos reunidos na capital queniana. Conhecido pelo escândalo das dívidas ocultas, Moçambique tem sido citado muitas vezes como um exemplo de um país com dívidas insustentáveis, falta de transparência e pagamento de dívidas com recursos que deviam servir para alavancar sectores sociais básicos.

Num discurso fortemente político e marcado por críticas ao sistema financeiro global, o deputado afirmou que o continente continua preso a estruturas económicas herdadas do colonialismo, agora reproduzidas através da dívida externa, das agências de classificação de risco e dos mercados financeiros internacionais.

“Ontem usavam soldados. Hoje usam dívida. Ontem ocupavam território. Hoje ocupam espaço fiscal”, afirmou.

Segundo Reddy, os governos africanos deverão gastar mais de 90 mil milhões de dólares apenas em serviço da dívida externa em 2026, reduzindo drasticamente a capacidade dos Estados financiarem sectores essenciais como saúde, educação, água e infra-estruturas.

“Antes de contratar médicos, construir escolas ou reparar estradas, os credores já estão na primeira fila para receber”, disse, criticando uma realidade comum em muitos Estados, incluindo Moçambique.

Ao longo da intervenção, o parlamentar insistiu na necessidade de humanizar o debate económico africano, defendendo que a dívida pública deve ser reportada como um problema social e não apenas financeiro.

“A dívida não é uma história económica. A dívida é uma mãe à espera numa clínica sem medicamentos”, afirmou.

Para o deputado sul-africano, o principal desafio da comunicação social africana é aproximar os grandes indicadores macroeconómicos da realidade concreta das populações.

“Os jornalistas têm a responsabilidade de traduzir a economia para linguagem humana. Não escrevam histórias que apenas economistas consigam entender”, apelou.

Reddy defendeu que temas como dívida soberana, austeridade e espaço fiscal precisam ser tratados como assuntos de interesse público, directamente ligados ao desemprego, fome, pobreza e degradação dos serviços sociais.

“Já ligaram a dívida à fome? À má qualidade da saúde? À falta de água? À degradação das estradas?”, questionou aos jornalistas presentes.

“África não é pobre, está a ser sufocada”

Num dos momentos mais fortes da intervenção, o deputado rejeitou a ideia de que África seja um continente pobre, argumentando que o problema central está na contínua extracção de riqueza africana por actores externos e elites locais.

“A África possui ouro, diamantes, petróleo, gás, minerais estratégicos, terras férteis e a população mais jovem do mundo. África não é pobre. África está a ser sufocada”, afirmou.

Segundo Reddy, o modelo económico global continua assente numa lógica histórica de exploração africana iniciada durante a escravatura e o colonialismo. O parlamentar acrescentou que muitos países africanos continuam a exportar matérias-primas baratas e importar produtos acabados caros, reproduzindo a mesma estrutura económica colonial sob novas formas.

“Primeiro foi a extracção do trabalho africano. Depois a extracção de terras e minerais. Hoje temos austeridade, dependência financeira e dívida”, disse, para depois acrescentar que “as bandeiras mudaram, os hinos mudaram, mas a máquina económica de extracção permaneceu intacta”, declarou.

Críticas às elites africanas que contraem dívidas de forma irresponsável

Apesar das críticas ao Ocidente e às instituições financeiras internacionais, Reddy afirmou que parte da responsabilidade pela crise africana recai sobre as próprias elites políticas do continente.

“Esta crise sobrevive porque algumas elites africanas colaboram com este sistema”, acusou, acrescentando que muitos governos, incluindo o de Moçambique, contraem dívida de forma irresponsável, enquanto recursos públicos desaparecem através da corrupção, má gestão e projectos improdutivos.

Aliás, o deputado criticou ainda o estilo de vida de dirigentes africanos, acusando-os de viverem distantes da realidade das populações que governam.

“As dívidas financiam consumo e não economias produtivas. Depois a austeridade é imposta aos cidadãos comuns, enquanto as elites permanecem protegidas. Os políticos não sabem o que é viver sem carro, sem água ou sem electricidade. Tornaram-se celebridades, quando deveriam ser servidores do povo”, desabafou.

O papel da imprensa africana

Durante o discurso, Reddy destacou repetidamente o papel da comunicação social na fiscalização do poder político e económico. O parlamentar citou como exemplo o escândalo “Phala Phala”, envolvendo o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, afirmando que o caso só permaneceu vivo graças à pressão contínua da imprensa. Ao mesmo tempo, alertou para os riscos da captura da imprensa por interesses políticos e empresariais.

“A controvérsia no Parlamento morre rapidamente se a mídia não a mantiver viva. Falamos muito sobre Estados capturados, mas também existe mídia capturada”, disse, referindo-se à proximidade entre determinados grupos mediáticos sul-africanos e sectores políticos.

Segundo o deputado, os jornalistas africanos têm hoje a responsabilidade histórica de denunciar não apenas a corrupção interna, mas também as desigualdades estruturais do sistema financeiro global.

“Se África quer mudar a sua posição no mundo, precisa primeiro de mudar a forma como conta a sua própria história”, afirmou.

Na parte final da intervenção, Reddy defendeu uma agenda de soberania económica africana baseada na industrialização, fortalecimento de bancos públicos, protecção de recursos estratégicos e construção de Estados desenvolvimentistas.

A AFROMEDI VI decorre até sexta-feira em Nairobi, reunindo jornalistas, académicos, activistas e decisores políticos para discutir dívida soberana, justiça fiscal e arquitectura financeira global.

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