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Alexandre Chiure
Esta semana começou mal para mim, com muita preguiça e pouca inspiração. As ideias não fluem. Pensei em escrever para este espaço sobre os fabulosos salários do governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, e os seus administradores (nove pessoas) que comeram, num ano (2025) nada menos que 300,9 milhões de meticais.
Gastos feitos num país que se debate com a falta de ligaduras, luvas e medicamentos nos hospitais, crianças a estudarem sentadas no chão e debaixo de árvores, algumas sem livro escolar.
Desisti da ideia de escrever sobre o assunto por falta de inspiração. Mas interessava-me saber o que é que eles fazem de especial e diferente para cada um ganhar acima de três milhões de meticais por mês de salário e regalias que os outros não fazem. O pior é que as contas do banco no exercício de 2025 encerraram no vermelho, com um prejuízo de 13,3 mil milhões de meticais. Dá, mesmo, para desistir do tema.
Pensei em pegar na guerra em Cabo Delgado. Não para falar dos ataques de insurgentes, mas para debruçar-me sobre o financiamento do governo às forças ruandesas para manterem-se no teatro operacional norte.
Depois dos 20 milhões de euros que disponibilizou aos ruandeses em 2024, através do Mecanismo Europeu de Apoio à Paz, destinados à logística, transporte e equipamento não letal, que juntaram aos outros 20 milhões de 2022, apoio que expirou, desta vez a União Europeia piscou para o lado.
Seria interessante perceber o porquê de o governo moçambicano querer financiar tropas de Kigali e não as suas próprias forças que estão com problemas logísticos e, às vezes, sem o que comer. O Estado está a dever somas avultadas de dinheiro aos fornecedores de alimentos aos quartéis, situação herdada dos anteriores governos. Qual é a rácio aqui? Melhor ficar calado e pronto.
Depois surgiu-me a ideia de escrever sobre o caso que entristeceu o país inteiro de uma mulher que deu parto no chão, num hospital no Niassa, norte de Moçambique. A enfermeira de serviço, que descansava numa cama hospitalar, disse, num vídeo amador, que nada podia fazer para lhe prestar assistência porque não tinha luvas para o efeito. Mas é assim mesmo, enfermeira?
De repente, lembrei-me do caso das câmaras que o porta-voz do Conselho de Ministros disse, à saída de uma das últimas sessões de trabalho, que o governo ia instalar em algumas zonas estratégicas da cidade de Maputo. Estou espantado. Que são necessárias para o combate à criminalidade e auxílio à fiscalização rodoviária, é indiscutível. Por que motivo mais câmaras se já temos as das dívidas ocultas? Há, aqui, alguma coisa de errada. Vale a pena fechar a boca.
O dia era, mesmo, mau para mim. Depois de desistir do assunto das câmaras, fiquei, momentaneamente, sem nenhuma ideia na cabeça. Cheguei a pensar no Mundial de Futebol. Não me apareceu nada para escrever. Que a selecção sul-africana, os Bafanas Bafanas, que participava na copa não teve aquele carinho do público devido à xenofobia não é novidade. É tema que não é tema.
Fui puxando pela cabeça até lembrar-me da questão do subsídio aos transportadores. Há muita confusão. O Secretário de Estado dos Transportes, Chinguane Mabote, diz que tudo está pago. São 110 milhões de meticais para pouco mais de dois mil beneficiários.
Os beneficiários dizem que ainda não viram a cor do dinheiro. A FEMATRO diz que só mais de 50 por cento é que recebeu e o porta-voz não está informado sobre o assunto. O que é que se passa aqui? Quem está a falar a verdade? O dinheiro saiu ou não saiu dos cofres de Estado? Se é verdade que os transportadores não receberam os valores, onde parou o dinheiro? É melhor calar-me. É bom assim.
Estava para desistir de vez de escrever a minha crónica semanal, às vezes é bom não insistir com as coisas, quando me veio a ideia de falar sobre os 51 anos da independência nacional.Pois é, como não me lembrei logo do assunto? Ajeitei a cadeira. Levei a mão ao queixo. Fiquei a olhar para as nuvens, a matutar. O ponto é o que dizer de novo sobre o assunto.
Já se sabe que 51 anos depois, continuamos a nos debater com problemas básicos como o acesso à água potável, energia, saneamento. A Saúde e a Educação colapsaram. Na agricultura não se produz o suficiente para alimentar os 35 milhões de moçambicanos. Os transportes são uma lástima e o país, em segundo lugar na lista dos mais pobres do mundo. Que não somos pobres, mas empobrecidos e todo aquele latim. Tudo isso não é novidade.
Talvez dizer que o país tem que deixar de exportar matérias-primas em bruto como é o caso de areias pesadas exploradas por chineses em Chibuto, em Gaza, e pela Kenmare Resources PLC, de capital aberto e de direito Irlandês, em Moma, província de Nampula.
O Estado tem que estabelecer como princípio que quem quiser investir na pesquisa e produção de hidrocarboneto deve processá-los internamente, o que significará a abertura de fábricas que irão oferecer centenas de empregos a moçambicanos, mais pessoas a pagarem o imposto e com a vantagem de ficarmos a ganhar com ss subprodutos.
Outra coisa. Vamos lá pegar a sério o projecto de industrialização do país, começando pelo sector de processamento. Há muita fruta como ananás, banana, manga e outro que apodrece por falta de aproveitamento quando podia ser transformado em sumo.
Temos que apostar com seriedade na educação e no desenvolvimento de tecnologias acessíveis ao cidadão. Temos que mexer a sério com o turismo. Há condições para sermos uma referência no mundo. Temos excelentes paisagens, praias com água cristalina, fauna bravia e clima apropriado para o turismo.
Temos que pegar a sério na agricultura. Um país que dispõe de 36 milhões de hectares aráveis, água suficiente, sistemas de regadio, a exemplo do de Chókwe, em Gaza, com uma extensão de 200 quilómetros, e mão-de-obra barata está proibida de morrer a fome.
Temos que projectar o desenvolvimento do país para longo prazo, com metas claras, prazos de execução, investimento em semente de qualidade, equipamento agrícola, tecnologias e ambição de nos tornarmos auto-suficientes em 20 a 30 anos na produção de trigo, arroz, milho e noutras cuturas. Viver de importação não é vida. Todos os países que estão, hoje, desenvolvidos, seguiram este caminho. Vamos trabalhar!



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