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- Escavações procuram corpos soterrados, oficialmente estimados num mínimo de 50 vítimas mortais
- Relatos locais, entretanto, apontam para perto de duas centenas de corpos soterrados
- Cerca de 970 covas revelam dimensão económica e humana alcançada na mina
- Mesmo suspensa, mineração continua timidamente, apesar da presença permanente da polícia
Na Mina Seis Carros, no distrito de Vanduzi, província de Manica, mais de 14 mil pessoas vivem hoje entre a suspensão oficial da mineração e a necessidade diária de sobreviver. A exploração de ouro foi interrompida depois de sucessivos acidentes, desabamentos e mortes provocadas por métodos inseguros, incluindo escavações que chegam a 40 ou 50 metros de profundidade e uso irregular de explosivos. Apesar da proibição, a actividade não desapareceu completamente. Durante a visita ao local, o nosso jornal constatou sinais de exploração ainda em curso, embora de forma tímida e sob presença da Polícia de Protecção dos Recursos Naturais e Meio Ambiente. Decorrem escavações que procuram corpos soterrados, oficialmente estimados num mínimo de 50 vítimas mortais, mas há relatos que falam de perto de duas centenas, de uma mina que reúne pessoas de diferentes origens e estratos sociais, desde jovens desempregados, professores, técnicos de saúde, engenheiros, antigos combatentes e cidadãos provenientes de várias províncias do país. Para muitos, o garimpo tornou-se a única fonte de rendimento disponível. O Governo procura agora reorganizar a actividade através de cooperativas, melhorar as condições de segurança e criar mecanismos de controlo da produção e venda do ouro.
Nelson Mucandze
Há uma realidade difícil de esconder na famosa Mina Seis Carros, no distrito de Vanduzi, província de Manica. Oficialmente, a actividade mineira está suspensa. No terreno, porém, a vida construída à volta do ouro não parou completamente. De longe, a Mina Seis Carros parece viver sob permanente estado de alerta. Quando a nossa reportagem chegou ao local, percebeu rapidamente que ali não se circula, observa ou se fotografa livremente. Fomos impedidos de fazer imagens e desencorajados a olhar para além do movimento superficial, embora o pouco que se deixava ver fosse suficiente para levantar dúvidas sobre a paralisação efectiva da exploração, oficialmente suspensa. Entre pessoas que circulavam discretamente e sinais de actividade no terreno, havia também um ambiente de cautela diante da presença de estranhos. Um jovem apresentado como porta-voz da associação dos exploradores recusou-se a prestar declarações, explicando que só poderia falar mediante autorização da administração local. O silêncio, as restrições impostas à reportagem e o movimento observado contrastavam, assim, com a imagem de uma mina completamente encerrada.
Esse é o retrato de sobrevivência nos limites da proibição, numa mina que, segundo o Governo distrital, concentra mais de 14 mil pessoas e cerca de 970 covas.
O administrador de Vanduzi, Armando Canhenze, não esconde a complexidade do problema. Recebeu a nossa reportagem no jardim de administração distrital porque o gabinete já se encontrava fechado, afinal passavam duas horas das 15:30, para uma conversa que começou pela situação económica e social do distrito e rapidamente desembocou naquilo que parece ser uma das suas maiores preocupações, que é o destino de milhares de pessoas que fizeram da mineração o seu emprego, investimento e, em muitos casos, a última esperança.
Canhenze mostrou-se um administrador com elevado sentido de servir e uma preocupação quase paternal com a situação dos mineiros. Mas, por alguma razão, preferiu deixar para outra ocasião uma visita conjunta da nossa reportagem à Mina Seis Carros.
“Lá temos 14 mil homens”, revelou. Na sua maioria são jovens entre os 18 e 40 anos, mas a palavra “garimpeiro” pode transmitir uma imagem incompleta de quem está naquele espaço.
“Lá não são homens quaisquer. São quadros, na sua maioria. Tem lá docentes, tem técnicos de medicina, tem engenheiros, tem doutores e outras especialidades diversas”, explicou.
Segundo Canhenze, parte dessas pessoas não abandonou voluntariamente as profissões para as quais se formou. Simplesmente não encontrou enquadramento no mercado de trabalho. E o ouro surgiu como alternativa. “Em vez de ficarem nas suas casas de braços cruzados, preferem ir para lá”, explicou.
Na mina encontram-se pessoas provenientes de praticamente todas as províncias do país. Há igualmente cidadãos zimbabweanos e malawianos, além de estrangeiros envolvidos na compra do ouro, entre os quais são referidos nigerianos, burundeses e zimbabweanos.
A dimensão humana ajuda a perceber o dilema do Governo. Fechar definitivamente a mina pode significar retirar uma fonte de rendimento a milhares de famílias. Deixá-la funcionar como antes significa tolerar uma actividade que já produziu mortes em grande escala. Canhenze reconhece esse dilema. “Imagine 14 mil homens não estando lá. Onde estariam? Desempregados. A fazer o quê?”, questionou.
Para o administrador, a mina acabou transformada numa espécie de “salva-vida”. Mesmo quem consegue poucos gramas de ouro pode vender e levar algum dinheiro para alimentar a família. O problema é que esse “salva-vida” também mata.
Ouro é procurado a 50 metros de profundidade
Na Mina Seis Carros, a exploração chegou a níveis de elevado risco. Os mineiros abrem covas que podem atingir 40 ou 50 metros de profundidade à procura daquilo que localmente chamam de “cinta”, a formação rochosa onde se encontra o ouro. Quando encontram a cinta, deixam de cavar verticalmente e começam a persegui-la lateralmente, criando túneis subterrâneos. É aí que o risco aumenta.
Os mineiros retiram material, abrem corredores e, por vezes, comprometem as estruturas naturais que sustentam o solo. Há ainda recurso a explosivos por pessoas sem formação adequada.
Canhenze descreve acidentes provocados tanto por desabamentos como pelo manuseamento incorrecto de explosivos. Há ainda os chamados “gombirros”, grupos que, segundo o administrador, invadem covas exploradas por outros mineiros. Alguns entram armados com catanas e outros instrumentos e retiram até pilares de rocha deixados para sustentar os túneis quando percebem que esses contêm ouro.
A consequência pode ser fatal. Foi perante sucessivas mortes que o Governo decidiu suspender a exploração e avançar para uma reorganização da actividade. Neste momento, decorrem trabalhos de remoção de terra para tentar localizar corpos que terão permanecido soterrados. Segundo relatos recolhidos pelas autoridades junto de sobreviventes e pessoas que trabalhavam na área, poderão existir mais de 50 corpos debaixo da terra.
Durante os trabalhos já foram encontrados capacetes, berbequins, paus utilizados como escadas e outros equipamentos, o que alimenta a expectativa de que os locais onde permanecem os corpos estejam próximos.
Seis cooperativas para organizar milhares de mineiros
A estratégia encontrada pelo Governo passa pela formalização. Uma equipa multissectorial avançou com a organização dos mineiros em cooperativas. Até agora, seis cooperativas foram constituídas e licenciadas, enquanto outras se encontram em processo de formalização.
A intenção é que, quando a suspensão for levantada, a exploração deixe de seguir o modelo de túneis subterrâneos improvisados e passe para mineração a céu aberto, com equipamentos de protecção, capacetes, botas e regras técnicas de segurança.
Vanduzi pretende inclusive aproveitar experiência do vizinho Zimbabwe. Segundo Canhenze, foram iniciados contactos para que grupos de cooperativistas possam observar naquele país métodos considerados mais seguros de mineração e depois replicá-los localmente.
“Para não haver mais mortes. O que a gente teme aqui é morte. A riqueza é deles, mas tem que ser explorada de forma organizada”, resumiu. O desafio, entretanto, vai além da segurança. Existe a necessidade de controlar a comercialização do ouro, cobrar as respectivas taxas, reduzir a informalidade e evitar que o produto continue a alimentar circuitos de comercialização difíceis de rastrear.
Segundo o administrador, muitos mineiros venderam casas, viaturas e outros bens para investir na actividade. Compraram geradores, compressores, viaturas, pequenas máquinas de processamento e equipamentos de escavação. Alguns chegaram de províncias distantes e já não dispõem sequer de dinheiro para regressar às suas zonas de origem.
É uma população heterogénea presa entre uma mina que não pode oficialmente explorar e uma vida para a qual já não consegue simplesmente regressar.
No final da conversa, Canhenze abandonou por instantes a linguagem administrativa. Disse estar preocupado com o estado físico de algumas pessoas que permanecem na zona e pediu uma decisão das autoridades centrais. “Meu povo está a morrer de fome”, desabafou, defendendo que a equipa multissectorial encontre rapidamente condições para organizar e autorizar uma exploração segura.
A polícia continua no terreno para impedir a exploração. As cooperativas aguardam autorização. O Governo procura recuperar os mortos que ficaram debaixo da terra. E, enquanto a decisão não chega, a realidade impõe-se através de movimentações que deixam claro que apesar da proibição, há quem continue a procurar ouro.



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