Quase um ano de silêncio…

OPINIÃO
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Nilza Dacal

Há uma notícia que ninguém deu, porque as coisas que não acontecem não fazem manchete. Desde 7 de Outubro de 2025 não se registou um único rapto em Moçambique. São onze meses. Quem viveu os últimos quinze anos neste país sabe o que custou chegar a esta frase.

Custou às pessoas, primeiro. Foram 10 vítimas em 2024 e 10 em 2025. Ao longo de doze anos, cerca de cento e cinquenta empresários foram raptados e uma centena acabou por sair do país, segundo os números avançados pelo Presidente da República em Abril deste ano. Eram pessoas que pagavam salários no fim do mês, compravam a fornecedores da sua rua, assinavam contratos de arrendamento e cartas de crédito. Quando saem, levam tudo isso com elas.

Custou também a quem ficou. Há empresários que passaram a mudar de percurso para chegar ao escritório e famílias que deixaram de jantar fora. Há empresas que converteram em despesa de segurança o dinheiro que estava reservado para uma linha de produção. O medo funcionou entre nós como um imposto: não consta de nenhuma tabela, não foi votado por ninguém e toda a gente o pagou.

Vale a pena lembrar onde isto começou a mudar. No discurso de tomada de posse, a 15 de Janeiro de 2025, Daniel Chapo não se limitou a condenar os raptos. Anunciou uma unidade central de recolha, análise e partilha de informação sobre raptos e crime organizado, um sistema de alerta para crimes violentos, um serviço de assuntos internos para investigar a própria polícia e o reforço dos meios da investigação criminal. Prometeu ainda procurar aconselhamento junto de países que já tinham atravessado o mesmo problema. Foi um discurso de posse com lista de tarefas, o que não é hábito entre nós.

Tenho formação de auditora e trabalho a partir de uma pergunta única: que prova existe de que a actividade produziu o resultado que diz ter produzido? Aplicada a esta matéria, a pergunta tem resposta, e tem datas.

A 22 de Junho de 2025 foi aprovado o Plano Estratégico do SERNIC para o período 2025-2033, homologado dois dias depois pela Procuradoria-Geral da República, com um custo estimado de 88,85 mil milhões de meticais. A 8 de Agosto de 2025 entrou em funcionamento o primeiro Laboratório de ADN Forense do país, construído com cerca de 150 milhões de meticais do Orçamento do Estado, com capacidade para processar duzentas amostras por dia e devolver resultados em dois a quatro dias. Até então, o material biológico recolhido em cenas de crime moçambicanas seguia para a África do Sul. O tempo que se perdia nessa viagem trabalhava a favor de quem raptava.

Há um dado que, para mim, vale mais do que qualquer discurso. No Orçamento do Estado para 2026, a função segurança e ordem pública recebeu 46,9 mil milhões de meticais, mais 3,3% do que no ano anterior, num exercício em que a defesa perdeu 6,5% e a saúde 3,8%. Em ano de corte, pouca coisa subiu, mas essa subiu. A prioridade de um governo lê-se com mais fiabilidade na coluna da despesa do que na acta do discurso.

Os resultados acompanharam. Entre Janeiro de 2024 e Março de 2025, período reportado ao Parlamento pelo Ministro do Interior, registaram-se dezanove raptos consumados e duas tentativas. Quinze casos foram esclarecidos, oito vítimas recuperadas, doze armas apreendidas e quatro residências usadas como cativeiro desactivadas. As acções coordenadas entre a Polícia e o SERNIC levaram à detenção de mais de trezentas pessoas.

O facto que mais me interessa, porém, é recente. A 26 de Agosto deste ano, o SERNIC anunciou a detenção em Maputo do mandante do rapto de uma empresária ocorrido em Maio de 2023. O homem residia na África do Sul e coordenava a partir de lá. Chegar ao mandante, e não apenas a quem conduz a viatura e guarda a vítima, é a diferença entre uma operação policial bem-sucedida e uma capacidade instalada. A primeira resolve um caso. A segunda desmonta um negócio.

É por isso que saúdo o Presidente Daniel Chapo sem reservas quanto ao mérito. Elevou o combate aos raptos a prioridade presidencial no acto mais solene do mandato, manteve-a em Chimoio, perante os quadros do Partido, a 24 de Agosto, ao afirmar que continuaríamos implacáveis contra a corrupção, o tráfico de drogas, o branqueamento de capitais e os raptos, e voltou a ela na Praça dos Heróis, a 7 de Setembro: «Não podemos construir fábricas onde existe insegurança. Não podemos aumentar a produção onde existe medo.»

A exigência vem a seguir, e é de método. Onze meses sem raptos são um resultado. Não são ainda uma prova de confiança. Em auditoria nunca confundimos as duas coisas. O resultado mede-se pelo que deixou de acontecer, e esse está medido. A confiança mede-se pelo que volta a acontecer, e esse ninguém está a medir.

Proponho três indicadores, todos simples de produzir. O primeiro é a cadeia completa de cada caso: quantos raptos participados, quantos esclarecidos, quantos mandantes acusados, quantos julgados e condenados, publicados com periodicidade fixa e não apenas quando o Parlamento pergunta. O segundo são os processos de branqueamento de capitais associados a raptos que chegaram efectivamente à acusação, porque quem rapta por dinheiro só pára quando o dinheiro deixa de ter para onde ir. O terceiro toca-me directamente como deputada eleita por Nampula: quantos dos empresários que saíram já regressaram e quanto continuam a gastar em segurança privada as empresas que ficaram.

Insisto nisto por causa de um número. Em 2025, Moçambique recebeu 5,6 mil milhões de dólares de investimento directo estrangeiro, mais 60,2% do que no ano anterior. Só que 91,5% desse valor foi para a indústria extractiva e a indústria transformadora ficou com 120,9 milhões, pouco mais de 2% do total. O capital que regressou é capital de megaprojecto, que nunca teve de mudar de percurso para chegar ao escritório. O capital que fugiu era outro. Esse ainda não deu sinal, e é dele que vive o emprego nas nossas cidades.

Não é a primeira vez que os raptos abrandam em Moçambique. É a primeira vez que abrandam depois de o Estado ter construído cá dentro a capacidade de os investigar e de ter mostrado que consegue chegar a quem paga, e não apenas a quem executa. A diferença é grande e é ela que sustenta a saudação que aqui deixo.

O ofício ensina-me o resto. Um controlo que funciona e não é medido acaba por deixar de funcionar, e ninguém dá pela altura em que começou a falhar. Onze meses de silêncio valerão exactamente o que valer a prova que soubermos deixar deles.

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