Milhares de crianças traficadas prestam trabalho exploratório nas artérias da cidade de Maputo

SOCIEDADE
  • Sob olhar impávido das autoridades
  • Vendem durante horas a fio, vivem em condições deploráveis e são privadas de estudar
  •  Alguns foram traficados pelos próprios pais que mensalmente recebem dinheiro
  •  Há homens e mulheres que estão a fazer a vida explorando “pobres” de palmo e meio

A pobreza extrema, sobretudo nas zonas rurais, continua a ser a causa que empurra milhares de crianças para a exploração infantil nas grandes cidades, muitas vezes traficadas com o consentimento de familiares, incluindo os próprios pais. Após refazer a rota do tráfico humano no Sul do país, o Evidências obteve, na cidade de Maputo, relatos de crianças que viram os seus sonhos adiados e hoje deambulam pela urbe no comércio informal.

Neila Sitoe

Num país em que mais de 52 por cento da população está abaixo dos 18 anos, a taxa de trabalho infantil é de 22%. O garimpo, a prostituição e o comércio informal são apontados como as piores formas de trabalho infantil em Moçambique, que emprega mais de um milhão e duzentas mil crianças, entre os sete e 17 anos de idade, com maior incidência nas províncias de Nampula, Tete, Manica, Gaza, província de Maputo e cidade de Maputo.

A pobreza é apontada como sendo uma das causas que tornam as crianças vulneráveis ao trabalho infantil, sendo comum famílias das zonas rurais em situação de carência entregarem seus filhos a estranhos depois de “contratos verbais” com a promessa de trabalho ou de poderem prosseguir os estudos nas principais cidades.

Chegados ao destino, os menores são submetidos a um trabalho degradante, para além de excederem as horas normais de trabalho, para garantir o seu sustento e das famílias de acolhimento, muitas vezes, vivendo em condições deploráveis e sem remuneração justa. Casos há em que o mísero salário não lhes é pago directamente, mas sim enviado aos seus pais ou familiares na província de onde a criança procede, ficando a mercê de seus exploradores.

Um dos exemplos é de Armindo Machava (nome fictício), de 14 anos de idade, que vive em Khongolote, na Matola, em casa de uma suposta tia, que não a conhecia antes de deixar o pacato povoado em que vivia no interior do distrito de Manjacaze, na província de Gaza. Conta que veio a Maputo, a pedido da sua mãe, para morar com a referida tia, mas não sabe dizer se é da parte paterna ou materna e desconhece até o nome.

“Saí da minha casa em Manjacaze no ano de 2020, quando tinha 12 anos. Minha mãe disse-me que vinha continuar os estudos em Maputo, em casa da minha tia. Quando cheguei, comecei a vender bolinhos de manhã e de tarde, no mercado de Zimpeto, e de noite vou a escola”, conta o pequeno.

“Manda dinheiro para minha mãe e dá-me 500 meticais”

Arrancadas de suas famílias com a promessa de continuarem a estudar, as crianças, apesar de estarem ainda em idade escolar, na maior parte entre os sete e 16 anos de idade, são privadas do direito de ir à escola, passando a dedicar-se exclusivamente ao trabalho doméstico ou ao comércio informal.

É o caso do Armindo, que questionado sobre a classe que frequenta disse que estava na 7ª classe, mas algo chamou atenção da nossa equipa de reportagem porque ao questionarmos sobre o nome da escola não conseguiu responder. Depois de muito tempo de conversa o pequeno decidiu contar a nua e crua verdade. Desde que saiu de Manjacaze nunca mais voltou a sentar numa carteira.

“Vivo na zona de Khongolote, com uma tia que deve ter mais de 60 anos de idade, os filhos dela são todos crescidos, apenas um é que frequenta a faculdade. Diariamente, acordo às 4:00 horas, para varrer o quintal, lavar a louça e arrumar a casa, enquanto isso minha tia faz bolinhos. Quando ela termina, levo o balde e vou vender no mercado Zimpeto, com uma meta diária de 600 meticais nos dias bons e 500 meticais nos dias em que há pouco movimento”, explicou.

Filho mais velho da sua mãe conta que após descobrir que havia sido enganado pela progenitora, acabou se conformando porque a sua família é muito carente e esta é uma oportunidade de ajudar a sua mãe e os seus dois irmãos, visto que o seu pai há anos que foi à África do Sul não mais regressou.

“Os dias na casa da tia não têm sido fáceis, mas se for para um bem-estar da minha família estou disposto a suportar. Há dias em que ela está feliz, manda dinheiro para minha mãe e dá-me 500 meticais para as minhas necessidades”, desabafa.

Mesmo sem tempo e nem oportunidade de estudar, o pequeno Armindo diz que sonha em ser Polícia para proteger as pessoas. Aliás, tem esperança que o seu pai volte para que possa ter a oportunidade de voltar a ser criança como as outras.

“Quando eu crescer quero ser Polícia para proteger as pessoas, mas por enquanto vou trabalhando, e quem sabe um dia meu pai volte ou as condições da minha mãe melhorem, e eu terei como regressar a casa e conviver com os meus irmãos, que é a coisa que mais sinto falta”, lamentou.

Seis meninos num quarto minúsculo obrigadas a fingirem ser sobrinhos

Julinho, como prefere ser tratado, de 13 anos de idade, vive na mesma casa que o Arlindo, mas este é responsável por recolher garrafas plásticas nas ruas para no fim do dia lavá-las e enchê-las de água para vender também no mercado do Zimpeto. Mas, diferente de Arlindo, Julinho não ocultou a situação na qual se encontrava.

“Quando chegamos à casa da tia, fomos orientados a dizer que somos sobrinhos dela, que viemos para Maputo para estudar, mas de manhã vendemos para ajudar nas despesas e no fim do dia vamos à escola. Na verdade, foi a promessa que tive quando meus pais me informaram para vir a Maputo, saindo de Inhambane, sempre foi um sonho conhecer a cidade de Maputo, mas não nestas circunstancias”, denunciou.

Julinho diz que para além dele e do Armindo mais quatro meninos vivem na casa da tia, e as condições não são muito boas, partilham todos o mesmo quarto que está separado da casa principal, dormem três em cada esteira e partilham cobertores.

“Assim que está a iniciar o inverno estamos mal, tomamos banho logo cedo, quando estamos para sair, porque ela diz que devemos andar limpos para que não pensem que somos empregados, lavamos constantemente a roupa porque também temos pouca. O mais triste é quando chega a hora das refeições, quem não conseguiu vender muito tem pouca comida no prato, e eu que vendo água gelada, neste inverno estou mal”, afirmou com uma lágrima no canto do olho.

Em vez de estudar e brincar como os meninos da sua idade, o pequeno Julinho tem de trabalhar duro, muitas vezes debaixo de sol escaldante para conseguir ganhar dinheiro para ajudar a sua família. Sonha em ser enfermeiro, mas confessa que nas condições actuais dificilmente poderá conseguir lograr esse desiderato.

“Queria ter nascido em uma família com mais condições para não ter que passar por isto, mas também esta situação toda deve ter algum propósito, porque quando conto aos meus pais o que passamos cá, eles dizem que dias melhores virão. Pedem para eu ter paciência, mas até quando viverei assim, já tentei fugir, mas Armindo e os outros me encontraram uns metros depois da casa e a tia me disse que se eu voltar a fugir meus pais vão passar fome por minha causa”, narrou.

“Trabalho desde os meus seis anos… nunca frequentei uma escola”

A equipa de reportagem encontrou também o pequeno Lucas, de 14 anos de idade, que diz viver na zona do Chamanculo com um grupo de meninos também da sua faixa etária. Ele vende doces, chocolates e chips durante as noites na avenida da Marginal, enquanto os outros meninos com quem vive vendem gelinhos, bolachas e os outros limpam para-brisas dos carros ao longo da avenida 24 de Julho, na cidade de Maputo.

“Cheguei a Maputo quando tinha nove anos de idade, sabia que vinha para trabalhar porque meus pais não têm condições, desde os meus seis anos que trabalho, primeiro trabalhei como pastor de bois e cabritos, em Chibuto, e depois passei a capinar por troca de algum dinheiro. Esse trabalho era pesado e preferi vir a Maputo para ser vendedor. Mensalmente, recebo 1000 meticais, dos quais 700 mando para a minha mãe e o resto contribuo para a alimentação e o espaço na casa onde vivemos”, disse denunciando o submundo do trabalho infantil.

Lucas diz que o trabalho que faz em Maputo é leve e se sente bem fazendo, diz também que por vezes recebe gorjetas dos casais que compram os seus produtos ao longo da Marginal, valor que deposita numa poupança que faz com os amigos e que recebe no final do ano e usa o valor para viajar para Chibuto e comprar algumas coisas para si e sua família.

“Sonho em ser professor, mas não sei como farei porque nunca frequentei uma escola. Não sei ler nem escrever meu próprio nome e sempre que lembro disso fico muito triste”, revelou.

“A solução do trabalho infantil está na eliminação da pobreza”

Para Jaime Jairosse, especialista dos Direitos da Criança, Governação e Advocacia, o trabalho infantil é prejudicial para a criança, na medida em que ela terá de deixar de passar a infância como criança e é obrigada a desempenhar acções de uma pessoa crescida.

“Em todas as capitais provinciais de Moçambique temos crianças nas ruas, que praticam o trabalho infantil de várias formas, desde serem recrutadas para serem babas, venderem vários produtos alimentares na rua, até os que estão envolvidos em esquemas de trabalho infantil. Alguns são recrutados, por exemplo, para limpar os para-brisas dos carros. Parece algo que fazem por iniciativa própria, mas tem alguém que os controla e no fim do dia todo o valor ganho com aquele tipo de trabalho infantil que por sinal é muito perigoso para a criança, vai para o responsável pela área”, afirmou.

O especialista explicou que muitas vezes essas crianças vivem em locais impróprios, são proibidas de estudar, visto que a missão delas é fazer mais e mais dinheiro, outras apenas trabalham em troca de um prato de comida, lugar para ficar e no fim do ano recebem algum valor para voltar às suas zonas de origem para passar as festas de final de ano e depois regressam.

“Temos acompanhado casos que os próprios pais é que oferecem as crianças para irem as capitais trabalhar e no final do mês eles é que recebem o valor destas crianças, algumas os pais as entregam na esperança de que o seu filho vai trabalhar em troca de um lar onde terá educação e alimentação e ser tratado como filho da casa, mas não é o que acontece, temos também casos de crianças em que são elas mesmas que saem das suas zonas de origem, em direção às capitais a procura de melhores condições de vida”, afirmou.

O especialista revela que todas as formas de trabalho infantil é mais fácil preveni-las e é menos dispendioso em termos de custos, através da eliminação da pobreza no seio das famílias.

“A solução deste problema não está na construção de casas de abrigos, orfanatos, centros de acolhimento, está na eliminação da pobreza dentro das famílias e nas comunidades, para que as crianças não terminem dentro das redes de trabalho infantil, incluindo as questões de migração insegura de crianças, muitas das vezes feita dos campos para as cidades, ou capitais províncias. É a razão de muitas das formas de trabalho infantil terem uma imagem urbana, apesar de existirem algumas com imagem rural como a agricultura e pastorícia. O trabalho infantil é um ciclo vicioso, e uma das formas de se prevenir é combatendo as causas, e uma das principais causas é a pobreza”, frisou.