A sustentabilidade dos media não é um problema comum

EDITORIAL
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A realização da Conferência Nacional de Sustentabilidade dos Media deixou uma certeza impossível de ignorar: O jornalismo precisa de mudar. Precisa de reinventar-se. Precisa de abandonar zonas de conforto que já não produzem sustentabilidade, influência nem capacidade de sobrevivência. Mas a mesma conferência deixou igualmente outra convicção: O jornalismo não pode morrer. Não numa sociedade que ainda precisa desesperadamente de escrutínio, de mediação pública e de vozes capazes de incomodar o poder, explicar a realidade e organizar o debate democrático.

Durante dois dias, em Maputo, mais de 150 participantes, entre proprietários de órgãos de comunicação social, gestores, jornalistas, académicos, reguladores e parceiros, colocaram sobre a mesa o colapso silencioso do modelo económico dos media que durante anos foi empurrado para conversas fechadas. Falou-se da fuga da publicidade para as plataformas digitais, da fragilidade das televisões, do impacto da inteligência artificial, da precariedade nas redacções, da dependência política e financeira, da erosão da confiança pública e até da dificuldade de os próprios jornalistas sobreviverem num mercado cada vez mais hostil.

E talvez o mais importante tenha sido exactamente a coragem do sector olhar-se ao espelho sem maquilhagem.

O valor da conferência não esteve apenas nos diagnósticos, muitos deles já conhecidos, mas sobretudo na legitimidade das vozes que os fizeram. Não eram observadores externos a teorizar sobre um problema distante. Eram proprietários de órgãos de comunicação social que enfrentam diariamente dificuldades conhecidas. Eram gestores obrigados a equilibrar custos operacionais num mercado publicitário reduzido. Eram profissionais da rádio, televisão, imprensa e digital confrontados com mudanças tecnológicas que transformaram completamente a forma de consumir informação. Eram figuras históricas do jornalismo moçambicano lado a lado com novas gerações, numa rara conversa intergeracional sobre o futuro do sector.

Foi importante ouvir perspectivas diferentes. Da empresa pública à iniciativa privada. Dos veteranos aos mais jovens. Dos que defendem modelos tradicionais aos que apostam na inovação digital, isso tudo porque a sustentabilidade dos media não é um problema uniforme. Ela assume formas distintas dependendo da dimensão do órgão, da sua localização, da sua dependência económica e da sua capacidade de adaptação tecnológica.

Mas se houve algo transversal em quase todas as intervenções foi a consciência de que continuar igual já não é uma opção.

O jornalismo terá de encontrar novas linguagens, novos modelos de negócio, novas formas de financiamento e novas formas de relação com o público. Terá de perceber que a disputa pela atenção mudou radicalmente. Hoje, compete não apenas com outros órgãos de comunicação social, mas também com algoritmos, influenciadores, plataformas digitais e conteúdos instantâneos que circulam sem qualquer filtro editorial.

Ainda assim, seria um erro interpretar esta necessidade de mudança como uma sentença de irrelevância do jornalismo. Pelo contrário. Quanto mais desinformação circula, maior se torna a necessidade de instituições jornalísticas credíveis. Quanto mais o espaço digital se transforma num território caótico, mais importante se torna a existência de media capazes de verificar, contextualizar e responsabilizar.

Por isso, a conferência foi relevante. Porque não se limitou a lamentar a crise. Criou um espaço para pensar soluções. E isso faz toda a diferença.

A morte do jornalismo não interessa à democracia, ao Estado nem à sociedade. O que interessa é um jornalismo mais sustentável, mais inovador, mais independente e mais próximo das transformações do seu tempo. Um jornalismo que compreenda que defender os seus valores históricos não significa resistir à mudança, mas sim adaptar-se para continuar relevante.

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