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Shipeni Thovela
“A família é o fogo: quem se afasta sente frio.”
Provérbio africano
Na quinta-feira passada, dia 11 de Junho, a África do Sul perdeu o jogo inaugural do Campeonato do Mundo de 2026 diante do México, por 2-0. Não foi apenas uma derrota desportiva. Nas redes sociais, de Dakar a Maputo, de Lagos a Nairobi, os africanos apoiavam o México. Não a África do Sul. Não foi a primeira vez que os dois se defrontaram numa abertura de Mundial. Em 2010, quando a República da África do Sul foi o primeiro país africano a acolher a competição, México e África do Sul empataram no jogo inaugural, e um continente inteiro torcia pelos Bafana-Bafana. Dezasseis anos depois, esse apoio evaporou-se. Esse afastamento tem causas, e essas causas têm nome.
Já escrevemos nestas páginas sobre o absurdo fundador: o negro africano considerado ilegal em África, num continente cujas fronteiras não nasceram de nenhum pacto entre os seus povos, mas foram traçadas à régua e esquadro por homens que nunca pisaram o seu interior. Em Maio de 2008, dois anos antes do Mundial de 2010, 62 pessoas foram mortas nas ruas de Johannesburg e arredores. A maioria era moçambicana, zimbabweana, somali. Morreram às mãos de sul-africanos negros que os trataram como intrusos num continente que é de todos. Vale fixar o detalhe: eram sul-africanos negros a matar africanos negros. Essa distinção, entre o Estado sul-africano e a sua população negra, é o que este artigo vai pedir ao leitor que não esqueça.
A afrofobia na República da África do Sul não é fenómeno recente nem espontâneo. É uma postura que o Estado tem alimentado por omissão durante décadas, tratando o migrante zimbabweano ou moçambicano como ameaça enquanto celebra a integração continental nos discursos de cimeira. Grupos como a Operation Dudula e a March and March fazem das fronteiras uma causa política, bloqueando zimbabweanos em Beitbridge com câmeras ligadas e aplausos nas redes sociais. África observou. Tomou nota. E quando na quinta-feira passada teve de escolher entre a África do Sul e o México num estádio no outro lado do mundo, a escolha foi rápida.
Importa não confundir. Nenhum país é obrigado a ter fronteiras abertas, e a República da África do Sul tem o direito soberano de gerir a sua imigração. O que indigna o continente não é essa gestão. É a brutalidade com que tem sido feita: a violência das multidões, a passividade sistemática da polícia perante ataques a africanos, a cobertura política implícita que transforma xenofobia em causa popular. Gerir a imigração ilegal é uma responsabilidade de Estado. Deixar que africanos sejam espancados nas ruas e não agir é uma escolha de Estado.
A resposta africana não ficou nas redes sociais. Em Maio de 2026, o Gana fretou um avião para repatriar 300 dos seus cidadãos que fugiam da África do Sul por temerem pela sua segurança. Dos 300, apenas doze eram ilegais. Os restantes tinham documentos. Tinham direito de estar. Foram embora na mesma. A Nigéria registou mais de 130 pedidos de repatriamento. E quando os ataques não abrandaram, vozes políticas e empresariais foram mais longe: exigiram publicamente ao governo que não renovasse a concessão mineira da Gold Fields para a mina de Tarkwa, uma das maiores explorações de ouro do continente, operada por uma empresa sul-africana há mais de trinta anos. A não renovação ainda não é facto consumado. Mas o facto de estar sobre a mesa já diz o que as declarações diplomáticas raramente dizem.
Há uma assimetria que raramente se diz em voz alta. Enquanto o migrante negro enfrenta detenção, violência e deportação, a entrada irregular de cidadãos brancos não gera no país alarme comparável. Nem nas ruas, nem nos parlamentos, nem nas operações policiais. Pode argumentar-se que os números são diferentes. Mas em política, o que se decide perseguir revela sempre o que se decide ignorar. E o que a África do Sul tem decidido ignorar durante anos é visível para todos os seus vizinhos.
Do outro lado, organizações como o AfriForum e o movimento Groter Solidariteit trabalham em sentido contrário. O AfriForum enviou delegações a Washington em 2025 para pressionar a administração Trump contra a Lei de Expropriação sul-africana, contribuindo para o boicote americano à cimeira do G20 em Johannesburg em Novembro de 2025. A narrativa que exportaram, a do branco sul-africano como vítima de perseguição racial, encontrou eco num presidente americano que fechava simultaneamente as portas aos refugiados afegãos e somalis. O que estes movimentos reclamam não é igualdade. É a recuperação de uma posição que 1994 interrompeu. As eleições de 2024, que pela primeira vez retiraram ao ANC a maioria absoluta, abriram espaço para esse projecto avançar. O horizonte de 2029 não é uma data longínqua.
Se as coligações se desfizerem e o poder em Pretória se redesenhar em direcção a uma lógica que 1994 deveria ter encerrado, quem precisará de África não será o Estado sul-africano. Será a população negra sul-africana. Os mesmos que a luta continental ajudou a libertar. Foi África que sustentou os movimentos de libertação a partir de Dar es Salaam e de Lusaka, que acolheu os exilados do ANC quando Pretória os perseguia, que pagou um preço alto em desestabilização, em vidas e em sanções económicas para que o apartheid caísse. Essa dívida existe. Mas a solidariedade não se herda automaticamente. Cultiva-se, ou perde-se.
Dir-se-á que a África do Sul sobreviveu décadas de isolamento durante o apartheid com apoio de potências ocidentais que nunca deixaram de fazer negócios com Pretória. Que tem a economia mais industrializada do continente. Que não precisa de África para sobreviver. Mas o mundo de 2029 não é o de 1985. Os corredores de Maputo, o gás do Rovuma, as rotas que atravessam os países que hoje trata como periféricos não são favores que África concederá por boa vontade. São interdependências que o tempo construiu sem pedir autorização a ninguém. E a população negra sul-africana, se um dia precisar de quem a reconheça como legítima dentro das suas próprias fronteiras, precisará que África a reconheça. Quando esse momento chegar, os aplausos da quinta-feira passada pelo México vão pesar.
O que aconteceu nas redes sociais na quinta-feira passada foi apenas desporto, dirão alguns. Talvez. Mas os primeiros sinais de isolamento chegam sempre antes de ninguém os querer levar a sério. A solidariedade africana é moeda de reserva. Gasta-se devagar e recupera-se com dificuldade. A República da África do Sul tem-na dilapidado em cada deportação filmada, em cada fronteira fechada a quem tem a pele errada, em cada delegação enviada a Washington para convencer o mundo de que é ela a vítima. As dívidas continentais cobram-se sempre na pior hora.



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