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Estêvão Chavisso
O regresso de Steven Spielberg à ficção científica, com o recém-lançado suspense “Disclosure Day”, trouxe-me à cabeça uma pergunta que, aos nossos olhos, como africanos, tem merecido pouca atenção: estamos mesmo sozinhos no universo?
É compreensível que a ufologia ou astrobiologia não tenham tanto espaço no contexto de um continente em que 34% das famílias vivem abaixo da linha de pobreza, mas isso não anula a pertinência de um debate sobre uma pergunta que mudaria ontologicamente a forma com que nós compreendemos a nossa existência.
Em 145 minutos, a ficção científica de Spielberg, basicamente, conta a história de Margaret Fairchild (Emily Blunt), um meteorologista que trabalha numa televisão local, e Daniel Kellner (Josh O’Connor), um especialista em cibersegurança que se apoderou de arquivos secretos que provam a existência de extra-terrestres. Ambos mantiveram contactos com extra-terrestres e, com apoio de um movimento rebelde, procuram revelar ao público a verdade que, por décadas, o Governo tentou controlar.
Pouco me interessa aqui ater-me a uma análise do filme, que tem enfrentado actualmente críticas mistas, sobretudo quando comparado às obras-primas já produzidas por Spielberg, entre as quais o Schindler’s list (1993), o Saving Private Ryan (1998) até mesmo o “E.T. the Extra-Terrestrial” (1982).
O que me atormente é a pergunta que o “Disclosure Day” levanta, num contexto muito peculiar: estará a humanidade pronta para as perguntas cujas respostas poderiam mudar drasticamente a compreensão de quem somos?
Desde o incidente em Roswell, em 1947, foram milhares de pessoas, entre civis e militares, incluindo africanos, de diferentes realidades, que vieram a público para falar de supostas experiências com objectos voadores não identificados ou com seres inteligentes que não eram humanos.
Mais de 90% destes casos, segundo posições oficiais, tiveram sempre explicações lógicas, que, quase sempre, passaram por meros reflexos nas lentes, balões meteorológicos ou ultra-secretos ou simplesmente ilusões de óptica.
Nada foi levado realmente a sério até 2017, quando Helene Cooper, Leslie Kean e Ralph Blumentha publicaram, no The New York Times, o artigo ‘Black Money’: The Pentagon’s Mysterious U.F.O. Program”, um trabalho que denunciou a existência de um programa secreto do Pentágono, orçado em 22 milhões de dólares, para estudar ameaças ligadas a objectos voadores não identificados.
O trabalho de Cooper, Kean e Blumentha não só colocava um tema quase sempre associado a teorias da conspiração num dos principais diários mundiais, como também apresentava provas, a partir de uma série de vídeos de pilotos norte-americanos presenciando fenómenos aéreos não identificados, de que o Departamento de Defesa estava a investigar os tantos casos que não tinham uma resposta lógica.
Quase nove anos se passaram desde o artigo do The New York Times e, sob orientações de Trump, o Pentágono divulgou, em Maio deste ano, 161 arquivos relacionados com supostos alienígenas e objectos voadores não identificados, classificando o acto como um momento de “transparência sem precedentes”.
Além de não apresentarem provas conclusivas, parte considerável dos ficheiros divulgados já eram de domínio público e a decisão de os desclassificar pode sempre ser associada a uma tentativa por parte de Trump de desviar a atenção face às catástrofes do seu actual mandato, com destaque para a Guerra contra o Irão e caso Epstein.
De qualquer forma, é o Pentágono a admitir, pela primeira vez, estes registos, que, em menos de 24 horas após sua publicação, registaram mais de 340 milhões de acessos.
As transcrições oficiais das entrevistas dos astronautas a bordo das missões lunares Apollo 11, Apollo 12 e Apollo 17, nas décadas de 1960 e 1970, descrevendo fenómenos anómalos avistados nas viagens, são provavelmente a parte mais intrigante destes arquivos desclassificados.
As perguntas à volta deste tema são várias e não devem ser assumidas meramente como ocidentais. São perguntas que dizem respeito à espécie humana, no seu todo. Estaríamos nós de facto sozinhos – seja nos 93 mil milhões de anos-luz do universo observável ou na sua extensão provavelmente infinita?
Consciente da minha ousadia, dispenso a Equação de Drake e o Paradoxo de Fermi para responder à questão.
Na verdade, para mim, nós nunca estivemos sozinhos. É só olhar o mundo que nos rodeia e perceber a complexidade do ecossistema que domina a nossa existência colectiva, enquanto parte desta diversidade que é a natureza.
Esta pergunta só faz sentido porque a nossa noção de “vida inteligente” parte de conceitos e pressupostos tipicamente humanos: Processamento, Tecnologia e Senciência, à moda humana.
Se a busca fosse genuinamente por vida, se calhar, nem precisávamos olhar para o espaço. Começaríamos por lutar contra a ignorância que abunda sobre o homem em relação à natureza de que ele faz parte.
Um estudo publicado na revista científica PLOS Biology apontava, em 2011, para cerca de 8,7 milhões espécies existentes mundo, dos quais 7,4 milhões de espécies de animais ainda não foram descobertas pelo homem nem catalogadas, o que representa 86% de toda a vida na Terra.
Trata-se de outro tipo de vida que está debaixo do nosso nariz e que provavelmente nos podia dar contributos científicos para percebermos diversos aspetos ligados à natureza, biologia e a nós mesmos, mas, em vez de estudar e cuidar destas espécies, nós as colocamos em causa, sejam com poluição, guerras e outras formas tipicamente humanas que ameaçam o nosso habitat.
Se há ou não vida extra-terrestre nestes termos, isso para mim é também uma incógnita. No entanto, os nossos olhos no espaço não estão à procura necessariamente de outro tipo de vida. Estão, na verdade, à procura de uma “vida semelhante”, um outro ser capaz de minimizar o peso humano de se saber responsável pela inevitável extinção de um habitat que não é só nosso.



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