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As redes sociais estão inundadas de hipóteses, sim, hipóteses, de “especialistas” e curiosos em inteligência artificial que, a partir de uma publicação de Venâncio Mondlane, colocaram em dúvida a autenticidade da fotografia divulgada nas páginas oficiais da Presidência da República e do Presidente da República. O problema é que mesmo pessoas com conhecimentos técnicos mais apurados limitaram-se a apresentar “hipóteses” e “possibilidades” que expõem a sede pela informação por detrás da fotografia e isso, na mente dos menos atentos, rapidamente deixou de ser “possibilidade” ou “hipótese” para se transformar em verdade absoluta, ou seja, fraude da inteligência artificial, não apenas da foto mas do próprio encontro.
Os factos que conseguimos juntar indicam que as fotografias oficiais foram tiradas pelos fotógrafos pela Casa Branca e depois partilhados do lado norte-americano pelos canais diplomáticos. Portanto, independentemente das teorias construídas à volta das imagens, existe um elemento essencial, que é o facto de que interessa às duas partes reconhecer publicamente que o encontro aconteceu.
Imaginemos, para efeitos ilustrativos, um cenário simples. Os dois estadistas encontram-se durante poucos “segundos”, conversam informalmente e concordam que o momento pode ser tornado público. Uma das partes divulga uma fotografia e descreve o contacto como “breve encontro”. Podemos discutir se houve uma reunião formal, se existiu uma agenda estruturada, quanto tempo durou a conversa ou qual foi o seu conteúdo. Mas seria estranho concluir que o encontro não aconteceu apenas porque a fotografia despertou suspeitas nas redes sociais. Os próprios intervenientes reconheceram aquilo que aconteceu.
Quanto à natureza do encontro, há sim detalhes que merecem esclarecimento. A própria utilização da expressão “breve encontro” recomenda prudência sobre a dimensão política ou diplomática que lhe deve ser atribuída. Mas também seria difícil imaginar que a Presidência da República, conhecendo as implicações diplomáticas de uma comunicação falsa envolvendo o Presidente dos Estados Unidos, decidisse fabricar um encontro e publicá-lo oficialmente. Seria um embaraço facilmente desmentível pela outra parte. Haja alguma razoabilidade.
Todavia, por detrás desta controvérsia existe uma questão muito mais séria. Vivemos num ambiente profundamente polarizado, mas a polarização não explica tudo. As nossas instituições acumulam um preocupante défice de credibilidade. Chegámos a um ponto em que, seja qual for a natureza de infirmação vinda de órgãos soberanos, uma parcela dos cidadãos começa por presumir que é falsa. As pessoas já não escolhem necessariamente aquilo em que acreditam a partir dos factos, mas escolhem, muitas vezes, os factos que melhor acomodam aquilo em que previamente decidiram acreditar.
Imagine-se amanhã a Presidência anunciar uma conversa telefónica importante com um Chefe de Estado estrangeiro. Mesmo que a conversa tenha efectivamente acontecido, milhares poderão exigir gravações, fotografias, confirmação da outra Presidência ou provas adicionais. Se estas não surgirem imediatamente, a versão oficial poderá ser tratada como mentira. É isto que significa degradação reputacional. A palavra de um órgão de soberania deixa de beneficiar sequer da presunção inicial de credibilidade. E isso é assustador.
Mas o Governo não pode apresentar-se apenas como vítima desse descrédito. Deve também perguntar quanto contribuiu para produzi-lo. Comunicação tardia, informação incompleta, ausência de contexto, contradições anteriores e excessiva gestão política da informação pública vão corroendo confiança. Quando esse capital se esgota, até a verdade precisa de testemunhas. A grande lição desta fotografia, portanto, talvez não esteja na inteligência artificial. Está na facilidade com que milhares de cidadãos acreditaram que a Presidência seria capaz de fabricar um encontro desta dimensão.



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