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Alexandre Chiure
Li há dias, numa das plataformas digitais, uma notícia em que o ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Alberto Mito Albino, faz declarações bombásticas em Massingir, em Gaza, dizendo que o seu governo está prestes a declarar, oficialmente, o fim de importações de produtos agrícolas da África do Sul e apostar-se na produção interna.
Ao que pude perceber na minha leitura, essa declaração só não se pode fazer agora pura e simplesmente porque se espera pela conclusão das obras de construção do mercado grossista a nível da província de Maputo, um projecto do governo local.
Confesso que fiquei curioso em saber o que é que terá mudado de repente ao ponto de Moçambique ter ficado auto-suficiente, de noite para dia, e os mukheristas não precisarem mais de mandar mais de 100 camiões diários para farmas sul-africanas a fim de comprarem cebola, batata reno e outros produtos para abastecerem o mercado nacional.
Continuei a ler a história atentamente na expectativa de encontrar, no corpo da notícia, algo de substancial que pudesse sustentar as palavras do governante que sonha com o fim da dependência do país em relação à África do Sul até finais do próximo ano.
No fim do texto, conclui, com tristeza, que, afinal, o ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas não tem nada para oferecer em troca de importações como de dizer que, a partir de 2027, o país tornar-se-á auto-suficiente e que não se justificará continuarmos a comprar produtos agrícolas fora do país. É isso o que eu esperava ouvir da boca dele, pois só desta forma é que se pode tornar o sonho em realidade.
O que entendi é que Roberto Albino está convencido de que para arrumar o assunto, basta “namorar” os importadores informais, vulgos “mukheristas”, para deixarem de fazer negócio com farmeiros sul-africanos e passarem a trabalhar com produtores internos.
Acredita que a solução passa por um trabalho em conjunto entre o seu governo e os operadores comerciais no sentido de estes redesenharem os seus mapas de abastecimento ao mercado nacional. O ministro parece não conhecer a realidade. Para começar, o país não tem estrada. Logo, não há como escoar a produção. Só a EN1 é um caos. Não existe praticamente. Admitindo a hipótese de haver produção que justifique a substituição de importações, como é que os camiões dos mukheristas chegarão às machambas nestas condições? Quem é que, por patriótico que seja, preferirá rebentar a sua viatura quando pode viajar numa boa estrada e comprar produtos aqui ao lado, na África do Sul? Ninguém.
É mais do que evidente que o governante está a agir por emoção. É que não compreendo como é que um assunto tão sério como este seja abordado de uma forma leviana e sem sustentação. Se este fosse o caminho certo para tirar Moçambique da dependência em relação aos sul-africanos, o problema teria sido resolvido há muito tempo, mas não é, não, senhor.
Uma coisa é o escoamento deficitário, por conta da degradação das vias de acesso, a outra coisa é a própria produção que está longe de satisfazer as necessidades de consumo das populações, apesar de termos tudo nas mãos para dependermos de nós próprios. Sem a África do Sul não podemos viver. Importamos tudo e nada, incluindo alfinete, agulha.
Até à altura da independência nacional, entre 1974 e 1975, Moçambique era auto-suficiente em arroz e noutros produtos. Chókwè registou o pico de produção do cereal nesse período, atingindo 80 mil toneladas. A província da Zambézia oferecia ao mercado 53 por cento do total do arroz produzido no país.
Hoje, o regadio de Chókwè, com cerca de 200 quilómetros de extensão e mais de 20 mil hectares, está subaproveitado. Segundo relatos de alguns agricultores locais, estão em uso apenas 25 a 30 por cento da sua capacidade, o que é, no mínimo, triste.
Aliás, este faz parte de um total de 25O regadios existentes no país, de pequena e grande escala, que cobrem mais de 180 mil hectares, sendo que 64 por cento da área localiza-se na zona sul, incluindo a região de Baixo Limpopo, em Xai-Xai, com 40 mil hectares, áreas que, no passado, já produziram toneladas e toneladas de alimentos.
O sector agrícola não precisa de muita coisa para alavancar-se, nem de estratégias de desenvolvimento. Aliás, no Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas tem muitas delas. Cada ministro que passou por aquela casa mandou elaborar a sua e, curiosamente, nenhuma delas foi implementada. Gastou-se tempo e rios de dinheiro em consultorias para nada.
O que é necessário fazer, agora, é algo muito simples: organização, coordenação e investimento. O passo número um é o governo reunir-se com os agricultores, sobretudo os que praticam a agricultura comercial, e saber deles do que é que necessitam para produzir cereais como arroz, trigo, milho e outros em grande escala.
O passo número dois seria o executivo mobilizar esses meios, que não seriam mais do que insumos agrícolas, nomeadamente adubos, fertilizantes e sementes de qualidade, tractores, tecnologias acessíveis aos agricultores, assistência de extensionistas e reabilitação de sistemas de regadios. Entregar tudo isso e cobrar aos agricultores que façam a sua parte.
Depois seria o governo a comprar a produção, a preços justos, através do Instituto de Cereais de Moçambique, que conservaria os produtos em silos ou armazéns. Estou certo de que, em tão pouco tempo, o país pode tornar-se auto-suficiente. Essa é a chave para acabar com a dependência em relação à África do Sul.
Nessa altura não será necessário mobilizar mukheristas para nada. Custa alguma coisa fazer isso? Custa apenas a seriedade, o cometimento do governo pela causa de desenvolvimento do país. Custa enfrentar cartéis que preferem mais ganhar dinheiro com as importações a propriamente incrementar a produção.



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