Momade engrossa a lista das suas vítimas políticas e aprofunda destruição da Renamo

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Os oito anos que reduziram a Renamo à sombra do que foi
  • Muchanga junta-se aos já isolados Manuel Bissopo, Ivone Soares, Timosse Maquinze, Elias Dhlakama, Alfredo Magumisse e André Matsangaíssa Júnior
  • Renamo perde quadros, qualidade política e protagonismo perante ascensão da nova oposição

Ossufo Momade, o obstinado, fez, semana passada, mais uma vítima e conseguiu uma proeza política que poucos dirigentes alcançariam. Ele transformou a maior força da oposição numa sombra de si própria, sem perder o controlo da presidência. Herdou de Afonso Dhlakama uma Renamo com história, implantação nacional, quadros influentes e milhões de simpatizantes. Oito anos depois, apresenta um currículo impressionante de rupturas, derrotas e afastamentos. Manuel Bissopo, Ivone Soares, Timosse Maquinze, Elias Dhlakama, Alfredo Magumisse e André Matsangaíssa Júnior integram o universo de figuras afastadas, marginalizadas ou descontentes. Mariano Nhongo protagonizou uma dissidência armada que terminou com a sua morte pelas forças governamentais. Venâncio Mondlane abandonou o partido, conquistou protagonismo nacional e criou a ANAMOLA. A Renamo perdeu a segunda posição parlamentar para o PODEMOS, enquanto Momade registava o pior desempenho presidencial da história partidária. Nos momentos decisivos da contestação democrática, a sua reduzida visibilidade sustentou a ideia de que Momade tem entendimento com a Frelimo, uma acusação que ele rejeita. Agora, António Muchanga engrossa a lista dos excluídos. Curiosamente, quanto mais a Renamo perde militantes, dirigentes, votos e qualidade política, mais Momade parece empenhado em preservar a sua autoridade.

Nelson Mucandze

Tudo começou há anos, quando Afonso Dhlakama morreu, a 3 de Maio de 2018, e deixou a Renamo a enfrentar o maior desafio de sucessão da sua história. Durante quase quatro décadas, Dhlakama tinha sido o principal elemento de coesão entre os antigos combatentes, as estruturas políticas e uma base eleitoral que fazia da organização a maior força da oposição, chegando a colocar a Frelimo em sentido, aliás, dava equilíbrio ao xadrez político.

Ossufo Momade, antigo comandante militar, deputado e secretário-geral, foi indicado para assegurar interinamente a liderança. Em Janeiro de 2019, no VI Congresso, realizado em Gorongosa, conquistou formalmente a presidência. A sua ascensão representava uma promessa de continuidade. Contudo, rapidamente surgiram sinais de que a reorganização partidária seria acompanhada por uma concentração de poder.

Em Fevereiro de 2019, Momade exonerou Manuel Bissopo, então secretário-geral e seu adversário na disputa pela presidência, além de outros responsáveis políticos e militares. Embora a direcção apresentasse as mudanças como parte da reorganização institucional, os críticos interpretaram-nas como o início de um processo de afastamento de figuras com autonomia política.

A partir desse momento, a divergência passou a ser frequentemente tratada como ameaça à autoridade presidencial, alimentando uma sucessão de conflitos que acabariam por ultrapassar as fronteiras do partido, mas a primeira grande ruptura surgiu em 2019, com Mariano Nhongo, antigo comandante da guerrilha e dirigente da chamada Junta Militar da Renamo. Nhongo acusava Momade de marginalizar antigos combatentes, desmantelar estruturas militares e conduzir de forma pouco inclusiva as negociações sobre a integração dos guerrilheiros nas instituições do Estado.

Entre as denúncias figuravam alegações de perseguição, desaparecimento de antigos oficiais e favorecimento de determinados grupos. A direcção da Renamo rejeitou essas acusações. A contestação evoluiu para uma dissidência armada, responsável por ataques e episódios de violência no centro do país. O conflito terminou com a morte de Mariano Nhongo, em Outubro de 2021, numa operação das forças governamentais.

Não existem elementos públicos suficientes para atribuir a Momade responsabilidade directa pela morte do dissidente. Entretanto, a dimensão assumida pela crise expôs a incapacidade da liderança de encontrar uma solução política para divergências que nasceram dentro da organização.

O episódio revelou também a fragilidade da transição entre a Renamo militarizada de Dhlakama e a organização exclusivamente política que Momade pretendia dirigir.

Pacto com a Frelimo para salvar a si, enquanto o Partido autodestrói-se

Em Agosto de 2019, Momade assinou com Filipe Nyusi o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional, considerado um dos principais marcos positivos da sua liderança. O entendimento permitiu avançar com o desarmamento, a desmobilização e a reintegração dos antigos guerrilheiros.

Por outro lado, a proximidade institucional entre os dois dirigentes alimentou suspeitas em sectores da oposição e entre militantes da Renamo. A expressão “Frenamo” ganhou espaço no debate político, utilizada por críticos para insinuar uma convergência de interesses entre a Frelimo e a direcção da Renamo.

Momade negou categoricamente a existência de qualquer acordo com a Frelimo. Mas, mesmo assim, a percepção de proximidade foi reforçada pelo comportamento político do presidente da Renamo em momentos decisivos da vida democrática nacional. Durante episódios de contestação eleitoral, incluindo a crise pós-eleitoral de 2024, Momade simplesmente desapareceu e a sua incapacidade de assumir um protagonismo correspondente à dimensão histórica do partido ficou mais nítida.

A ausência de uma intervenção política mobilizadora contrastou com o protagonismo de Venâncio Mondlane, que passou a ocupar o espaço de liderança oposicionista anteriormente associado à Renamo.

A marginalização das figuras históricas

O enfraquecimento da Renamo não ocorreu apenas através de derrotas eleitorais. Foi acompanhado por um processo de fragmentação das suas principais referências políticas. Manuel Bissopo, antigo secretário-geral, tornou-se uma das primeiras figuras relevantes afastadas das estruturas executivas. Ivone Soares, antiga líder da bancada parlamentar e uma das vozes mais reconhecidas da organização, perdeu centralidade nos principais espaços de decisão.

Timosse Maquinze, antigo chefe do Estado-Maior da Renamo e próximo colaborador de Dhlakama, passou a integrar o grupo de dirigentes que contestavam abertamente a liderança. Maquinze denunciou problemas relacionados com a situação dos antigos combatentes, a reintegração e a condução política do partido.

Elias Dhlakama, irmão do antigo presidente, e Alfredo Magumisse também se afirmaram como adversários internos de Momade, particularmente durante o processo de escolha da liderança em 2024. André Matsangaíssa Júnior, filho do fundador da Renamo, criticou igualmente a direcção, responsabilizando-a pelo aprofundamento das divisões.

As situações destas figuras não são uniformes. Alguns foram exonerados, outros perderam influência, enquanto vários continuam formalmente ligados ao partido e disputam espaço político. Mas o efeito acumulado é significativo. A Renamo foi perdendo figuras com experiência parlamentar, conhecimento das estruturas militares, capacidade de mobilização territorial e reconhecimento junto de diferentes gerações.

O resultado foi uma organização progressivamente dependente de um círculo restrito de dirigentes, com menor capacidade de produzir consensos e propostas políticas consistentes.

Venâncio Mondlane e a ruptura que mudou a oposição

A ascensão de Venâncio Mondlane constituiu um dos momentos mais determinantes para a transformação do sistema partidário nacional. Depois de mobilizar milhares de apoiantes nas eleições autárquicas de Maputo, em 2023, Mondlane passou a representar uma alternativa geracional dentro da Renamo. A contestação dos resultados eleitorais revelou uma capacidade de mobilização que contrastava com o desgaste da liderança nacional. Em 2024, Mondlane procurou disputar a presidência do partido, mas enfrentou obstáculos estatutários e políticos.

No VII Congresso, realizado em Alto Molócuè, a sua candidatura não foi admitida, por alegado incumprimento dos requisitos internos. Momade foi reeleito, mas a vitória revelou-se politicamente dispendiosa. Mondlane abandonou a Renamo e apresentou-se às eleições presidenciais de Outubro de 2024 com apoio do PODEMOS.

O resultado confirmou uma profunda transferência de influência política. Nas presidenciais, enquanto Mondlane conquistou “24,19% dos votos presidenciais”, Momade ficou reduzido a 6,62%. A Renamo perdeu igualmente a condição de segunda força parlamentar, passando de 60 deputados, em 2019, para apenas 28, em 2024. O PODEMOS conquistou 43 assentos. Pela primeira vez desde a introdução da democracia multipartidária, a Renamo deixou de ser a principal força parlamentar da oposição.

A posterior criação da ANAMOLA, liderada por Venâncio Mondlane, aprofundou o esvaziamento político da Renamo. A nova formação começou a atrair simpatizantes, antigos militantes e dirigentes descontentes com a condução de Momade. O fenómeno representava mais do que a emergência de um novo partido.

Durante décadas, a Renamo tinha sido a principal referência de contestação ao poder da Frelimo. A ascensão de Mondlane demonstrou que essa identidade política já não dependia necessariamente da organização fundada por André Matsangaíssa e consolidada por Dhlakama. A Renamo perdeu, assim, não apenas eleitores, mas também a capacidade de monopolizar a esperança de alternância política.

Muchanga é a mais recente vítima do desnorte de Momade

O afastamento de António Muchanga constitui o episódio mais recente da crise. A 22 de Outubro de 2026, o Conselho Nacional da Renamo decidiu expulsar o antigo porta-voz e deputado, conhecido pelas críticas à condução de Momade. A direcção invocou alegadas violações estatutárias. Muchanga contestou o procedimento e questionou as condições em que foi tomada a decisão. A expulsão ocorreu num momento particularmente sensível, quando a organização enfrenta pressões para antecipar a sucessão presidencial.

Em vez de utilizar a contestação como oportunidade para reconstruir consensos, a direcção voltou a recorrer a mecanismos disciplinares. O episódio reforça a percepção de uma liderança mais preocupada com a preservação da autoridade do que com a recuperação da credibilidade partidária.

Mas também foi nessa mesma reunião que Momade anunciou que não pretende disputar novamente a presidência da Renamo. Manteve, contudo, o segundo semestre de 2027 como horizonte para o próximo congresso, admitindo uma antecipação condicionada à disponibilidade financeira.

Expulsão de Muchanga expõe alegado plano para perpetuar Ossufo Momade na liderança da Renamo

 A crise interna da Renamo, agravada pela contestação à liderança de Ossufo Momade, que culminou com a ocupação de várias sedes do partido por membros descontentes, poderá esconder interesses que ultrapassam a disputa pela presidência da formação política. Informações recolhidas pelo Evidências apontam para a existência de alegadas movimentações destinadas a prolongar a permanência de Momade na liderança, garantindo a continuidade de determinados dirigentes em posições estratégicas, particularmente na Comissão Nacional de Eleições (CNE).

O plano, segundo os elementos apurados, consistiria em manter Ossufo Momade à frente da Renamo pelo menos até Junho de 2027, período em que se prevê a recomposição da CNE. A estratégia permitiria assegurar influência sobre a indicação dos representantes do partido naquele órgão, favorecendo a continuidade de figuras próximas da actual direcção.

Entre os nomes associados a estas movimentações surgem José Manteigas, Arnaldo Chalawa e Mazanga, apontados como integrantes de um círculo de influência que condicionaria decisões internas.

Outro elemento particularmente sensível envolve o tratamento diferenciado dispensado aos dirigentes considerados incómodos. Enquanto algumas figuras influentes foram progressivamente afastadas dos centros de decisão ou ficaram sem responsabilidades relevantes, António Muchanga tornou-se o único dirigente efectivamente expulso neste contexto de contestação.

A decisão terá ocorrido apesar de um entendimento inicial que previa evitar expulsões, levantando suspeitas de que a sanção pretendia transmitir um sinal de intimidação aos restantes contestatários.

Acrescem dúvidas sobre a regularidade do procedimento disciplinar, particularmente quanto à competência do Conselho Nacional para determinar expulsões e à utilização do voto aberto numa deliberação desta natureza.

Estas revelações colocam a crise da Renamo numa dimensão institucional mais profunda, sugerindo que a disputa poderá envolver não apenas a liderança partidária, mas também o controlo da representação do partido nos órgãos eleitorais.

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